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Os impactos da infraestrutura digital e os Centros de Dados em Portugal – uma perspectiva decrescentista

A resposta do decrescimento não deverá limitar-se a tornar a infraestrutura digital mais eficiente ou sustentável, mas deverá questionar o imperativo da sua expansão, reformulando-a como um bem comum sujeito à governação democrática e alinhando-a com uma economia com limites ecológicos e sociais.
Interior de um centro de dados. Um corredor de estantes com servidores cheios de luzes verdes, azuis e vermelhas. O corredor não tem janelas, apenas luz artificial, e uma porta de metal. IA
Gerado por algoritmos de computador.

Muitos defensores do decrescimento (mas também outros autores alinhados com o decrescimento) respondem à expansão da chamada economia digital argumentando que a infraestrutura física da qual depende – que inclui os centros de dados (CDs), a rede global de transporte de dados (cabos submarinos, satélites, etc.) ou o hardware e dispositivos de acesso – está prisioneira de uma lógica de crescimento e de concentração de poder que a torna incompatível com os limites ecológicos e com a justiça social [1,2,3]. Ampliando os alertas da comunidade científica [4], os decrescentistas pretendem assim desconstruir a (falsa) narrativa da desmaterialização da economia pela revolução digital, mostrando que ela está efectivamente dependente de uma quantidade crescente de recursos energéticos e materiais. Além do mais, dadas as pressões insustentáveis já existentes sobre os recursos naturais derivadas de outros sectores de actividade humana, a economia digital vem afinal intensificá-las, por mais ‘verde’ e transformadora que os seus aficionados defendam que ela é.

Para além disso e de forma ainda mais veemente, uma perspectiva decrescentista deverá reconhecer e denunciar o padrão por detrás do optimismo desmedido e da obsessão política que acompanham mais uma revolução tecnológica ‘disruptiva’, apoiada nas narrativas enganosas da inevitabilidade do progresso tecnológico, da resolução dos problemas da humanidade e de trazer prosperidade para todos [1,5]. É que já assistimos por diversas vezes a estas promessas vãs do sistema socioeconómico dominante e do paradigma industrial e cultural a ele associado, a começar pelas mitologias da modernidade ocidental e da 1ª revolução industrial dos séculos XVIII e XIX, e prosseguindo nas que se lhe seguiram durante o século XX. Os custos ambientais dessa aventura são por demais evidentes e há quem os englobe na chamada crise socioambiental global ou policrise. Quanto aos custos sociais, parece evidente que a revolução digital, inserida no actual modelo capitalista e neoliberal, irá intensificar a concentração de poder e as desigualdades, beneficiando a mesma minoria de sempre [1,6]. É assim legítimo afirmar que assistimos no início do século XXI a mais uma fuga para frente, desta vez protagonizada pelas grandes corporações tecnológicas e pelas elites políticas, que apostam na expansão, a qualquer custo, das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (NTIC) – Internet of Things, Big Data, Inteligência Artificial (IA), etc. A narrativa usada, embrulhada em designações aparentemente benignas como Transição Digital ou 4ª Revolução Industrial, vem condimentada com os habituais engodos falaciosos do crescimento económico, da atração de investimento e da criação de emprego [6,7]. Não serão aqui abordados os impactos e riscos associados ao desenvolvimento da IA, sendo o enfoque nos aspectos materiais e económicos da infraestrutura digital, em particular, os CDs.

Desmontando as promessas económicas e o greenwashing da transição digital

Uma das principais críticas à expansão das tecnologias digitais prende-se com a desconstrução do argumento ecomodernista das chamadas “transições gémeas” (a digital e a ‘verde’/energética) que é usado, quer pelas grandes corporações, quer pelas elites políticas que as promovem, para justificar a sua implementação. De facto, a transição digital é enaltecida não só como um salto tecnológico qualitativo comparável às grandes revoluções técnicas do século XX, mas também como uma forma de reforçar a transição verde (promovendo a descarbonização da economia), por usar tecnologias de alta eficiência (no uso de energia ou de água) e recorrer a ‘energias limpas’ [8]. A outra promessa é a de que o desenvolvimento da IA irá ajudar a encontrar as melhores soluções para mitigar os problemas causados pelas anteriores revoluções técnicas. Para uma desmontagem da narrativa ecomodernista ver p.ex. artigos de Johanna Sefyrin e Giorgos Kallis [9].

Acontece que a relação entre o discurso da sustentabilidade da transição digital e a realidade prática é de profunda contradição e assimetria, um fenómeno frequentemente apontado pelos ambientalistas como greenwashing técnico. Embora os CDs de grande escala (hyperscalers) sejam as infraestruturas digitais mais eficientes já criadas, o seu crescimento absoluto e exponencial está a sobrecarregar os limites planetários e as redes de recursos locais [1,2,3]. Um relatório do Instituto para a Água, Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH), publicado este ano, avaliou simultaneamente a pegada de carbono, a pegada hídrica e a ocupação de solo a nível global associados à produção da energia necessária para alimentar a infraestrutura digital da IA [10]. O relatório estima que cerca de 20 % da energia gasta pelos CDs deve‑se à IA, mas a proporção poderá subir para 40 % até 2030. Assim, prevê-se que até lá, os CDs de IA poderão consumir quase 945 terawatts-hora de eletricidade por ano (quase 3 % do consumo mundial previsto), gerando quase 399 milhões de toneladas de dióxido de carbono. Isso é quase três vezes o consumo combinado de eletricidade do Paquistão, Bangladesh e Nigéria (países com uma população combinada de mais de 650 milhões de habitantes). Em paralelo, a pegada hídrica deverá duplicar, dos actuais 4,5 biliões de litros anuais para 9,3 biliões — água suficiente para satisfazer as necessidades domésticas de todos os 1,3 mil milhões de pessoas que habitam na África Subsariana. A ocupação territorial ultrapassará os 14.500 quilómetros quadrados, uma área equivalente a mais do dobro da região metropolitana de Jacarta. Mas uma das conclusões principais é que os custos ambientais da IA dependem não só da quantidade de eletricidade consumida, mas também de onde essa eletricidade é gerada e quais as fontes de energia que a alimentam. Cada quilowatt-hora utilizado pela IA acarreta impactos de carbono, água e solo ocupado, e estas pegadas nem sempre se movem na mesma direção: eletricidade com baixo teor de carbono não significa automaticamente baixo consumo de água ou de área territorial e vice-versa. O relatório mostra ainda que os impactos ambientais da localização dos CDs, da procura de eletricidade, da captação de água, do uso do solo, da extração mineira e do lixo eletrónico se concentram em comunidades e regiões específicas, geralmente longe dos grandes centros urbanos dos países ricos que mais usufruem dos benefícios da IA. Conclui que a redução da pegada ambiental da IA será pois mais um desafio de governação e justiça, do que um mero problema técnico.

Parte do discurso das grandes empresas tecnológicas foca-se no indicador PUE (Power Usage Effectiveness), celebrando rácios excepcionais (muito próximos de 1), devido à inovação tecnológica (na produção de chips, servidores, etc.) para demonstrar que quase nenhuma energia é desperdiçada. No entanto, ser eficiente não significa consumir pouco. Pelo contrário, IA e CDs mais eficientes e acessíveis, aliados à expansão explosiva da IA, significam mais consumo de energia, tornando a pegada global muito maior do que aquilo que se pouparia através de ganhos de eficiência. É o chamado paradoxo de Jevons, ou efeito de ricochete (bem conhecido dos decrescentistas): a eficiência estimula a utilização, e o aumento de utilização anula a eficiência, resultando num aumento continuado do consumo de recursos [11]. Este aspecto é também enfatizado no relatório da UNU, citado acima [10].

A outra alegação das empresas tecnológicas é afirmarem-se os maiores compradores de ‘energia limpa’ do mundo, operando com eletricidade 100% renovável através de contratos preferenciais de aquisição (os chamados “Power Purchase Agreements”) [7,12]. Só que este processo acaba por esgotar a oferta disponível de eletricidade ‘verde’ nas redes públicas. Ao monopolizarem a energia eólica ou solar de uma região, os CDs forçam o resto da sociedade — indústrias tradicionais, habitações e transportes — a continuar a depender de centrais termoelétricas fósseis e mais poluentes para suprir as suas necessidades diárias [7,12].

Outro argumento da indústria é o recurso a sistemas de refrigeração inovadores e em circuito fechado para poupar água, monitorizados pela métrica WUE (Water Usage Effectiveness). No entanto, o consumo real de água potável para arrefecer os supercomputadores que correm IA 24 horas por dia é massivo [10,13,14]. Apesar das promessas de reciclagem ou do recurso a fontes de água alternativas, em cidades com défice hídrico como Goodyear (Arizona), os CDs chegam a consumir dezenas de milhões de galões de água por ano [13,14]. O mesmo cenário gerou fortes protestos e crises hídricas graves em regiões como Santiago do Chile, onde o consumo industrial concorre diretamente com o abastecimento público de água potável da população local [13].

Ainda no âmbito do impacto nas comunidades locais, temos, por um lado, a alegação das empresas tecnológicas de que os CDs são infraestruturas limpas, silenciosas e essenciais para a transição digital global, mas, por outro, temos a realidade de regiões com elevada densidade destas infraestruturas, como o Norte da Virgínia ou o Vale do Silício (EUA), onde os residentes enfrentam poluição sonora contínua (proveniente dos gigantescos geradores e ventiladores), além de receios legítimos de que o aumento brutal da procura de energia faça disparar as tarifas eléctricas residenciais. Estas situações têm motivado uma forte vaga de manifestações e contestação pública em diversos países [15,16,17].

Finalmente e não menos importante, há uma outra narrativa dominante de natureza económica que usa os argumentos estafados da atração de investimento e da criação de emprego. Esses argumentos são desmontados p.ex. por Henry Coleman num artigo para o site Local Futures [7]. A corrida ao investimento e à atração de empresas tecnológicas e de CDs para os territórios com o intuito de estimular o crescimento económico tem sido uma das estratégias de governos nacionais, estaduais ou locais, usando incentivos fiscais e cedências de terrenos [7,16]. No entanto, Coleman denuncia a falsidade e a perversidade dessas estratégias na medida em que as alegadas benesses económicas não se traduzem em benefícios para as comunidades locais, mas sim para as próprias empresas e os seus acionistas que se aproveitam dos subsídios públicos (diretos ou indiretos), tal como demonstrado por diferentes autores [16,17,18]. O outro alegado benefício muito apregoado, quer pelas empresas, quer pelos governantes, é o da criação de emprego. Esse argumento é desmontado por Coleman e outros autores que questionam a qualidade e a duração dos empregos criados, acusando ainda os promotores de ocultarem impactos sociais negativos, como o aumento de preços de bens e serviços ou a pressão sobre os serviços públicos [7,17,18]. Coleman cita o trabalho do economista Michael H. Shuman que demonstrou não só os efeitos contraproducentes dos incentivos às grandes empresas, como também os benefícios locais da aposta em sectores económicos tradicionais ou de pequena dimensão (artesanato, produtos locais, retalho), nomeadamente na criação de emprego digno e de longa duração [19]. Esta é aliás uma das propostas de transformação económica promovida pelos decrescentistas [1,6].

Edifício SIN01 da Start Campus (Sines)

A expansão dos CDs em Portugal

A dinâmica recente e as perspectivas de evolução da instalação de CDs em Portugal acompanham as tendências globais e espelham algumas das questões que foram levantadas anteriormente. Por um lado, temos assistido à promoção dessa dinâmica por parte dos últimos governos (sejam de maioria PS ou PSD), inserida na narrativa da transição digital – nomeadamente, através da Estratégia Digital Nacional e do Plano Nacional de Centros de Dados (PNCD), que pretendem atrair investimentos em infraestrutura digital e acelerar a implantação de CDs, reduzindo (alegadamente) a dependência tecnológica do país de plataformas estrangeiras e aumentando a competitividade [20]. Aquela estratégia envolve, como acontece noutros países e foi descrito acima, incentivos públicos que incluem a ‘simplificação’ de licenciamentos, a cedência de terrenos e o acesso à rede eléctrica (e a energias renováveis), prometendo a criação de emprego e impacto económico [21]. Por outro lado, surgem os relatórios de grandes consultoras internacionais como a JLL (Jones Lang LaSalle, IP, Inc./Sociedade de Mediação Imobiliária) que promovem Portugal como ‘hub europeu’ de CDs [22] e destacam a Start Campus em Sines como referência nacional [23]. Para consolidar a narrativa, temos ainda um estudo encomendado pela Associação Portuguesa de Data Centers (Portugal DC), que prevê que, até 2031, o número de postos de trabalho criados pelos CDs em Portugal ultrapasse os 9.400 e que o contributo destas infraestruturas para o PIB português atinja os 3,7 mil milhões de euros, face aos 160 milhões de euros registados em 2024, atraindo ainda um investimento total de 13 mil milhões [24]. Parece assim evidente que o discurso dominante se foca em indicadores macroeconómicos vistosos mas abstratos, que ofuscam as ‘externalidades’ ambientais e sociais.

A Start Campus é a empresa promotora do megacentro de dados Sines 4.0 (que passou a designar-se SINES Data Campus), onde pretende instalar uma potência de 1.2 GW (até agora só está concluído e em operação o primeiro módulo SIN01 de 37,5 MW), alegando que virá a ser um dos mais sustentáveis ecossistemas digitais da Europa dirigido para IA, com conectividade global e integrando tecnologias de arrefecimento líquido sustentáveis [25]. Alega ainda que o campus utiliza energia 100% renovável (graças a um contrato com a EDP) e tem como meta um PUE líder no setor de 1,1 e um WUE de 0, tirando partido do arrefecimento com água do mar. No entanto, a Start Campus admite que poderá ser impactada negativamente por um litígio entre a EDP e o Estado português no que respeita à titularidade dos canais de circulação da água do mar para arrefecer os servidores dos seus CDs [26]. Convém ainda lembrar que a empresa foi constituída arguida na Operação Influencer, que levou à queda do governo de António Costa, por suspeita do Ministério Público de que a empresa contratou o advogado Diogo Lacerda Machado (amigo do então primeiro-ministro) por cerca de 6.500 euros mensais, para influenciar o Governo e entidades públicas (como o ICNF e a Câmara de Sines) a tomar decisões favoráveis ao licenciamento e instalação do projeto junto da antiga central termoelétrica [27]. A empresa negou qualquer irregularidade, apontando “equívocos” sobre o impacto ambiental, e pagou uma caução de 600 mil euros, devolvida em 2024 [28]. Apesar do processo, o primeiro edifício do centro de dados (SIN01) foi inaugurado em 2025 e a operação continua em curso, tendo a Start Campus sido recentemente galardoada com diversos prémios internacionais do sector [25]. De notar que várias das notícias citadas acima dão destaque ao número de empregos que a empresa alega que serão criados: 1.200 empregos directos ‘altamente qualificados’ e 8.000 empregos indirectos até 2028 [27]. No entanto, têm vindo a ser identificados alguns impactos ambientais significativos que a LPN alega serem em parte resultantes da dispensa de Avaliação de Impacto Ambiental [29], além da contestação em volta do abate de sobreiros para a construção de parques eólicos na região [30]. Mas os principais efeitos negativos, não só da Start Campus como das outras unidades da chamada Zona Industrial e Logística de Sines, manifestam-se ao nível dos concelhos da região em termos de disponibilidade de alojamento, especulação imobiliária, aumento de preços de bens alimentares e serviços, além da pressão sobre redes de água, saneamento, resíduos, acessibilidades, segurança, proteção civil, saúde e educação [31].

Apesar de todo o entusiasmo e optimismo em relação à expansão dos CDs em Portugal, existem preocupações concretas sobre os seus impactos infraestruturais, ambientais e sociais, alinhadas com as questões levantadas na primeira parte deste texto. O país tem neste momento mais de 40 CDs em operação (sedeados maioritariamente nas regiões de Lisboa e Porto), mas estão previstos outros tantos a médio prazo, sem que o governo tenha dado detalhes sobre a sua localização ou os seus promotores [32]. A única garantia exigida aos promotores é o pagamento de cauções para travar pedidos especulativos de potência da rede eléctrica. Quanto ao impacto dos futuros CDs em termos de produção eléctrica própria, de tarifas de electricidade ou de uso de água potável, o governo não impôs garantias ou tectos [32,33]. Esse foi aliás um dos alertas lançados pela associação ambientalista ZERO que defende que a expansão da infraestrutura digital não pode comprometer metas ambientais assumidas e deve cumprir critérios claros de soberania digital e de utilidade social, propondo que seja integrada na chamada Estratégia Industrial Verde [33,34]. A ZERO adverte também para os seguintes factos: os pedidos de ligação à rede eléctrica para novos CDs já representam mais de 70% da potência solicitada à REN; os CDs em operação no país já consomem o dobro da eletricidade de todas as famílias na cidade de Lisboa; a procura do sector poderá disparar e representar entre 15% a 20% (ou, em cenários extremos, até metade) do consumo eléctrico total de Portugal na próxima década; o PNCD carece de limites vinculativos de eficiência energética e hídrica, funcionando sem travões firmes para o uso de recursos; e a energia renovável do país corre o risco de alimentar preferencialmente este sector em vez de descarbonizar a indústria, os transportes e as habitações [34]. Aquela ONGA encara pois com cepticismo as promessas económicas do Governo e o modelo actual focado em conceder benefícios para a instalação de CDs, alertando para um claro desequilíbrio entre o forte investimento atraído sem acautelar contrapartidas públicas tangíveis e com um fraco retorno social e ambiental gerado para as populações locais. Para a ZERO, sem uma estratégia clara, estas infraestruturas geram um ‘efeito ricochete’: consomem grandes quantidades de recursos materiais e energéticos para alimentar actividades de baixo valor social ou voltadas puramente para o mercado digital global, deixando pouca riqueza real no território português. Em suma, a ZERO avisa que Portugal corre o risco de se tornar um ‘exportador bruto’ de processamento de dados à custa dos seus próprios recursos naturais, sacrificando as metas de sustentabilidade social e climática em nome de indicadores económicos abstratos [33,34]. Uma das medidas preconizadas pela ZERO é a implementação de Condomínios Industriais assentes na economia circular e no ecodesign, articulando produção e consumo de energia, calor e água, exigindo também que o plano seja diretamente cruzado com a futura Estratégia Nacional de Armazenamento de Energia para promover o fim efectivo dos combustíveis fósseis na produção elétrica até 2035 [34].

A resposta plural do decrescimento

Como acabámos de ver, a aposta na expansão dos CDs como componentes de maior peso da infraestrutura digital faz parte de uma estratégia tecnocrática global que promete progresso tecnológico e prosperidade económica, mas que resulta em retornos financeiros para uma minoria e prejuízo social para muitos, para além de fortes impactos ambientais. Aquela estratégia põe em causa uma verdadeira sustentabilidade ambiental e social abrangente e de longo prazo, que deveria estar na base de um modelo societal justo e sensato, como aquele a que aspiram os decrescentistas. Atendendo a que faz parte integrante da visão de mundo e do modelo de desenvolvimento hegemónicos, dependentes do crescimento permanente do metabolismo económico, do extractivismo e do produtivismo, percebe-se que os incentivos estejam todos na manutenção do status quo e do “business as usual”, onde se incluem a expansão e intensificação das tecnologias digitais. A resposta do decrescimento não deverá pois limitar-se a tornar os CDs e a restante infraestrutura digital mais eficientes ou sustentáveis, mas deverá questionar o próprio imperativo de expansão, reformulando aquela infraestrutura como um bem comum sujeito à governação democrática e alinhando-a com uma economia que funcione dentro de limites ecológicos e sociais, em vez de persistir no crescimento perpétuo [1,5]. Não se trata portanto de diabolizar a tecnologia, mas de reconhecer que ela pode até contribuir para operacionalizar as propostas decrescentistas de governança colectiva, de auto-organização e de emancipação, desde que devidamente enquadradas numa ética política dos limites, da suficiência e do bem comum, impedindo, ao mesmo tempo, a mercantilização extensiva e a concentração de poder na mão de oligarcas e de grandes corporações privadas [1,5,6]. Alguns autores (Mario Pansera e colaboradores) defendem uma “internet sóbria” que aceite os limites da infraestrutura existente, melhore a eficiência de utilização e restrinja os processos que consomem mais recursos, ao mesmo tempo que questionam como é que os CDs poderiam ser reimaginados como “tecnologias conviviais” passíveis de uma governação democrática que contribuísse para uma redução planeada da actividade económica [1]. Propõem identificar pontos de alavancagem para travar a dinâmica de crescimento, incluindo iniciativas regulatórias, fenómenos culturais ou forças económicas alternativas que emergem através de movimentos sociais, como o ‘open source’, a computação lenta, a pós-automação ou cooperativismo de plataformas. Por outro lado, autores como Michael Kwet defendem que o contributo da economia digital para o ecocídio não se resume à pegada ambiental directa do sector das NTIC, mas reside na acumulação por parte das elites e nas trocas ecologicamente desiguais dentro e entre as nações [6]. Para Kwet a redução e limitação do consumo global de recursos materiais, requer uma transição rápida do capitalismo e colonialismo digitais para um sistema que reduza drasticamente a desigualdade entre e dentro dos países, que ele designa por ‘decrescimento digital’. Para tal Kwet apela à ação directa contra Silicon Valley, o imperialismo norte-americano e as elites do poder em todo o mundo, de forma a concretizar uma sociedade digital radicalmente igualitária que promova a solidariedade em harmonia com a natureza. As propostas decrescentistas não são pois homogéneas ou monolíticas, espelhando uma pluralidade de caminhos e de possibilidades, mas ancoram-se num conjunto de valores comuns e em abordagens de transformação sistémica.

Nota: Na escrita deste artigo foram usadas ferramentas de IA apenas para pesquisar artigos e alguns dados.

Adenda: Seguem links para informação sobre a situação de três CDs nacionais retirada do site Causas de Raiz que mapeia conflitos ambientais em curso em Portugal: Start Campus (Sines): https://causasderaiz.org/ia-sines.html; Hyperion II (Abrantes): https://causasderaiz.org/hyperion-abrantes.html; CD da Neoen (Alcoentre): https://causasderaiz.org/azambuja-dc.html

Referências

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3 – Digitalization and degrowth. Steffen Lange 2017: https://degrowth.info/en/blog/digitalization-and-degrowth

4 – Scientists’ warning on technology. Bill Tomlinson et al. 2024: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0959652623042324

5 – Digital degrowth innovation: Less growth, more play. Pete Howson et al. 2021: https://researchportal.northumbria.ac.uk/en/publications/digital-degrowth-innovation-less-growth-more-play/

6 – The case for digital degrowth. Michael Kwet 2024: https://www.truthdig.com/articles/the-case-for-digital-degrowth/

7 – Beware the “Investment”! Henry Coleman 2026: https://www.localfutures.org/beware-the-investment/

8 – Twinning the green and digital transition in the new geopolitical context. EU Strategic Foresight Report 2022: https://commission.europa.eu/strategy-and-policy/strategic-foresight/2022-strategic-foresight-report_en

9 – Sustainable datacentres and eco-modernist frictions in Sweden. Johanna Sefyrin 2026: https://www.tandfonline.com/doi/pdf/10.1080/1369118X.2025.2596872; Limits, ecomodernism and degrowth. Giorgos Kallis 2021: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0962629821000275

10 – Environmental Cost of Artificial Intelligence: Carbon, Water, and Land Footprints (Relatório da UNU-INWEH). M. Aczel et al. 2026: https://unu.edu/inweh/collection/environmental-cost-of-AIs-Enrgy-Use-Carbon-water-and-land-footprints; notícia: Não é só carbono: centros de dados para IA trazem custos elevados de água e uso do solo. Aline Flor (2026): https://www.publico.pt/2026/06/04/azul/noticia/nao-so-carbono-centros-dados-ia-trazem-custos-elevados-agua-uso-solo-2176715

11 – Digitalization, Efficiency and the Rebound Effect. Tilman Santarius 2017: https://degrowth.info/blog/digitalization-efficiency-and-the-rebound-effect

12 – Greenwashing Through RECs and PPAs: A Critical Examination of the GOP's Energy Tax Strategy and Big Tech's AI-Fueled Power Grab. S. Chandrakumara 2025: https://zenodo.org/records/15036540

13 – IA não pode ser sustentável se o impacto dos data centers não for reconhecido, Carine Roos 2025: https://exame.com/bussola/ia-nao-pode-ser-sustentavel-se-o-impacto-dos-data-centers-nao-for-reconhecido/

14 – AI Is Draining Water From Areas That Need It Most. Leonardo Nicoletti et al. 2025: https://www.bloomberg.com/graphics/2025-ai-impacts-data-centers-water-data/

15 – The Hidden Cost of AI: Data Centers and Public Outrage. Amanda Hayes 2026: https://www.reviewboard.com/news/056e9f12-5c55-4163-80fe-9b057b83f8c9/the-hidden-cost-of-ai-data-centers-and-public-outrage

16 – Growth of data centers requires new policies to mitigate local community impacts. Ben Green 2025: https://fordschool.umich.edu/news/2025/growth-data-centers-requires-new-policies-mitigate-local-community-impacts

17 – Power for data centers could come at ‘staggering’ cost to consumers. Pam Radtke 2025: https://floodlightnews.org/power-for-data-centers-could-come-at-staggering-cost-to-consumers/

18 – Cloudy with a Loss of Spending Control: How Data Centers Are Endangering State Budgets. Kasia Tarczynska 2025: https://goodjobsfirst.org/cloudy-with-a-loss-of-spending-control-how-data-centers-are-endangering-state-budgets/

19 – Vote Against Fake Economic Development. Michael Shuman 2020: https://michaelhshuman.com/vote-against-fake-economic-development/; ver também os diversos livros de Michael H. Shuman, incluindo “The Small-Mart Revolution” (2006): https://michaelhshuman.com/store/

20 – Centros de dados como ativo estratégico. Portal digitalGOV 2026: https://digital.gov.pt/pt/estrategia-digital/plano-nacional-de-centros-de-dados; notícia: Portugal acelera estratégia digital (AICEP) 2026: https://portugalglobal.pt/noticias/2026/maio/portugal-acelera-estrategia-digital/

21 – Governo vai “simplificar” licenciamentos para atrair mais ‘data centers’ para Portugal. Tiago Alexandre Pereira 2026: https://eco.sapo.pt/2026/03/19/governo-aprova-plano-nacional-de-centro-de-dados/; Dos terrenos ao investimento: o plano de Portugal para centros de dados. Leonor Santos 2026: https://www.idealista.pt/news/financas/investimentos/2026/04/15/74954-dos-terrenos-ao-investimento-o-plano-de-portugal-para-centros-de-dados 

22 – “Global Data Center Outlook 2026”. Relatório da JLL: https://www.jll.com/pt-pt/insights/market-outlook/global-data-centers; notícia: Data centers: Portugal afirma-se como hub europeu. (Observador Lab) 2026: https://observador.pt/2026/03/19/data-centers-portugal-afirma-se-como-hub-europeu/

23 – “Data Centers em Portugal 2026”. Estudo da JLL-Portugal: https://www.jll.com/pt-pt/insights/data-centers-portugal-2026; notícia: Sines ganha peso no mapa dos centros de dados com projeto de 1.200 MW. O Digital 2026: https://sapo.pt/artigo/sines-ganha-peso-no-mapa-dos-centros-de-dados-com-projeto-de-1-200-mw-6a7b34c2e7c4d45e907ce43c

24 – Data centers contribuirão com 3,7 mil milhões para a economia portuguesa até 2031. Tiago Alexandre Pereira 2025: https://eco.sapo.pt/2025/10/21/data-centers-contribuirao-com-37-mil-milhoes-para-a-economia-portuguesa-ate-2031/

25 – Site da Start Campus: https://www.startcampus.pt/pt/

26 – Start Campus reconhece que data center de Sines pode ser impactado por litígio entre a EDP e o Governo. Alexandre Batista 2026: https://eco.sapo.pt/2026/06/26/start-campus-reconhece-que-data-center-de-sines-pode-ser-impactado-por-litigio-entre-a-edp-e-o-governo/

27 – Start Campus: a empresa no meio da polémica. Lusa 2023:  https://sicnoticias.pt/pais/2023-11-09-Start-Campus-a-empresa-no-meio-da-polemica-6ae192e5;  Start Campus recebe primeiros milhões após caso Influencer. Alberto Teixeira 2024: https://eco.sapo.pt/2024/01/23/start-campus-recebe-primeiros-milhoes-apos-caso-influencer/

28 – Operação Influencer: Start Campus aponta “equívocos” que ameaçam projeto em Sines. Lusa 2024: https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/operacao-influencer-start-campus-aponta-equivocos-que-ameacam-projeto-em-sines/; Operação Influencer: caução de 600 mil euros devolvida à Start Campus por ordem do juiz. SIC Notícias/Lusa 2024:https://sicnoticias.pt/pais/2024-07-24-operacao-influencer-caucao-de-600-mil-euros-devolvida-a-start-campus-por-ordem-do-juiz-edbaec01

29 – Pressão sobre redes de água, saneamento, resíduos, acessibilidades, segurança, proteção civil, saúde e educação. Comunicado de imprensa LPN 2023: https://www.lpn.pt/pt/media/comunicado-de-imprensa/-compatibilizacao-do-desenvolvimento-com-a-conservacao-do-patrimonio-natural-tem-de-ser-levada-a-serio-que-sines-seja-exemplo-disso

30 – Associação entrega providência cautelar para impedir abate de sobreiros em Sines. Lusa 2023: https://www.publico.pt/2023/10/11/azul/noticia/associacao-entrega-providencia-cautelar-impedir-abate-sobreiros-sines-2066426; Megaprojeto eólico em Santiago do Cacém ao serviço da IA: Quercus alerta para impactos ambientais subavaliados. Quercus 2026: https://quercus.pt/blog/2026/08/08/megaprojeto-eolico-em-santiago-do-cacem-ao-servico-da-ia-quercus-alerta-para-impactos-ambientais-subavaliados/

31 – Sines: investimento celebrado nos gabinetes de Lisboa causa ondas de choque na região. Alexandre Batista 2026: https://eco.sapo.pt/reportagem/sines-investimento-celebrado-nos-gabinetes-de-lisboa-causa-ondas-de-choque-na-regiao/; Investimentos em Sines agravam falta de habitação. João Cunha 2023: https://rr.pt/especial/pais/2023/11/24/investimentos-em-sines-agravam-falta-de-habitacao/356374/; É preciso investir em quem vive em Sines. Álvaro Beijinha 2026: https://observador.pt/opiniao/e-preciso-investir-em-quem-vive-em-sines/

32 – Governo confirma 44 centros de dados, mas continua sem dizer onde e como. Sérgio Magno 2026: https://www.publico.pt/2026/09/26/enter/noticia/governo-confirma-44-centros-dados-continua-dizer-onde-2188871

33 – Sem tectos de água ou energia, centros de dados de IA pressionam sistema. Aline Flor 2026: https://www.publico.pt/2026/08/29/azul/noticia/tectos-agua-energia-centros-dados-ia-podem-gastar-agua-equivalente-regiao-lisboa-2186304

34 – Centros de dados podem ser aliados da transição verde, mas arriscam ser predadores de recursos sem retorno social. ZERO 2026: https://zero.ong/noticias/centros-de-dados-podem-ser-aliados-da-transicao-verde-mas-arriscam-ser-predadores-de-recursos-sem-retorno-social/