Do "decrescimento" ao "descrescimento": contribuições para o debate
Publicação de texto de Filipe Medeiros, membro da Rede.
Pode parecer uma mudança inútil para algumas pessoas. Também pode levantar um debate que outras julgavam estar fechado. Mas o fluxo das ideias é eterno e, acima de tudo, dá-se no contexto de uma língua. A nossa língua (a da Rede para o Decrescimento e de muitas outras pessoas) é o português. E é com a língua que conseguimos imaginar futuros, mudar corações e mentes e coletivamente construir novas ideias de sociedade.
A palavra "decrescimento" foi, provavelmente e pela primeira vez, traduzida do francês para o português por volta do início da década de 2000 — à data da publicação do artigo, o uso mais antigo que consegui encontrar foi a tradução para português do Brasil de um artigo de Serge Latouche, em 2003 — e, desde então, tem sido a forma predominante, ou até a única, que o nosso movimento, com toda a sua complexidade, utiliza para se referir à sua ideia fundamental. No entanto, é importante lembrar que, embora a versão "original" do termo seja, quase de certeza, a francesa "décroissance" (literalmente "decrescimento" ou "decréscimo" e sinónimo de "diminution" e de "réduction"), foi a forma inglesa "degrowth" que, sem muitas surpresas, conquistou o maior espaço no discurso académico e público.
Ora, a palavra "degrowth", para todos os efeitos, praticamente não existia na língua inglesa antes de ser aplicada no contexto da economia ecológica. E, mesmo com todas as advertências feitas por Fitzpatrick no seu capítulo do Routledge Handbook of Degrowth acerca da hegemonia da língua inglesa na discussão decrescentista, a nomenclatura inglesa tem uma grande vantagem: é pouco ambígua. Ao não utilizar um termo pré-existente, a língua inglesa, com "degrowth", criou espaço para uma nova forma de olhar para o mundo e tanto para interpretar a realidade atual como para imaginar futuros possíveis. O corpo académico e ativista poderia ter adotado traduções mais literais como "decrease", "decline" ou "reduction", mas preferiram preservar na palavra a "ideia a combater", para, ao mesmo tempo, a negar.
E essa é a crucial contribuição do termo inglês: nega, não contraria. Por exemplo, o conceito de "mentir" tem um contrário, "dizer a verdade", mas também existe uma palavra que representa a sua negação, "desmentir". Em português, o movimento de(s)crescentista necessita de uma palavra que, ao invés de significar o contrário de "crescimento" — "decrescimento" —, o negue sem o esconder. Felizmente os nossos amigos no México já pensaram nisto muito antes de mim. Em 2007, o coletivo ECOCOMUNIDADES traduziu "décroissance" para "descrecimiento". Não poderia dizer melhor do que fez Miguel Valencia Mulkay, no artigo hiperligado acima:
Mas tarde, observamos que existen muchas palabras españolas, con el prefijo des: deshacer, desvestir, descomponer, desligar, desvirtuar y muchas otras; en español, es una rareza la palabra decrecimiento. De esta manera aparece en nuestras bocas la palabra “descrecimiento” como una buena opción, para nombrar al movimiento mexicano contra el crecimiento sin límites; una buena opción, para cargarla con varios significados o connotaciones que no tiene la palabra decrecimiento, como son las siguientes […] [ênfases originais]
A sua menção de "descomponer" é particularmente interessante: o dicionário português oferece-nos duas palavras potencialmente opostas a "compor" — "descompor" e "decompor". Este exemplo serve para demonstrar que, por vezes, mudanças subtis na nossa linguagem podem comportar grandes diferenças nas imagens mentais que ela transmite. Ao passo que "descompor" nos remete para uma ideia de desordem, de inquietação ou de caos, "decompor" pode provocar pensamentos de decadência e podridão ou, muito distintamente, de uma partição minunciosa e técnica. Como Miguel, concordo que na palavra que escolhemos têm de caber muitos significados — os nossos significados — que não parecem caber no "decrescimento". Para além da definição oferecida por Parrique, de decrescimento como "uma redução da escala da produção e do consumo com vista a reduzir as pegadas ecológicas, planeada democraticamente duma forma que seja equitativa enquanto assegura o bem-estar", julgo que o descrescimento tem também de ser, simplesmente, "a rejeição do crescimento como um bem em si mesmo", ou seja, a rejeição da ideologia do crescimento. Assim, o descrecimento torna-se não só um plano de transição do sistema económico material, mas também uma contribuição para o que Marina Garcés chamou de um "Novo Iluminismo Radical".
Finalmente, adiciono algumas ideias que julgo serem essenciais para que possamos ter um debate público útil, consequente e mobilizador acerca do fim do crescimento económico, e de todas as consequências que isso trará. Seguindo o exemplo da comunidade de código livre — que em inglês sentiu ser importante clarificar o significado de "free software" com o semi-cómico lema "free as in freedom, not free beer" ("livre, não grátis") —, sugiro que passemos a acompanhar as nossa conversas acerca do descrescimento com as algumas clarificações provocadoras. O descrescimento será como um desmame do crescimento. Será uma solução própria, propositada e adequada, que advém do surgimento (e cristalização) de uma dependência num processo que há muito se tornou nocivo para o dependente — a humanidade. Ao mesmo tempo, o descrescimento obrigar-nos-á a desacreditar nas falsas promessas que nos foram feitas acerca do crescimento económico e desmascarar o chamado "desenvolvimento" (que, curiosamente, parece não ter qualquer interesse em promover o envolvimento daqueles que pretende ajudar). O descrescimento será uma fascinante ferramenta que teremos para desconstruir — mas não destruir — a sociedade atual e construir uma nova, que seja para a toda a vida presente e para os seus descendentes. O descrescimento também desejará que nos descentralizemos — que aprendamos a distribuir melhor o poder e os recursos que temos ao nosso dispor. Quanto ao mais, e talvez o mais importante de tudo, o descrescimento ajuda-nos a desanuviar, a descobrir, a descontrair, a desabrochar e a deslumbrar-nos.
Por isso, sempre que algúem me disser que o descrescimento é um beco sem saída político por se tratar de uma palavra com conotação negativa, eu tratarei de lembrar que nenhuma mudança radical de ideias, como aquela que esta nossa filosofia exige, foi alguma vez conseguida sem um pouco de desobediência e sem ter amigos com os quais desabafar sobre a nossa vontade de desafiar aqueles que têm todo o interesse em que tudo fique igual.