Rede para o Descrescimento

Um ministro do ambiente que não entende o problema do lítio, devia ser ministro do ambiente?
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Um ministro do ambiente que não entende o problema do lítio, devia ser ministro do ambiente?

Um ministro do ambiente que não entende o problema do lítio, devia ser ministro do ambiente?

O ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, não entende a “implicação” com a exploração de Lítio em Portugal. Também não deve entender a “implicação” com a exploração de outros materiais, no solo ou no fundo dos oceanos (como sugerido pelo PRR), tão essenciais para a tal “retoma económica e energética” que nos vai trazer de “volta ao normal”. A bem do ambiente, de Portugal, e da razão, queremos tentar explicar ao ministro o porquê de tal “implicação” (se bem que me pareça incrível e absurdo ter de explicar estas coisas a um ministro, que é suposto ser sumidade nos assuntos que “ministra”)...

Vamos por partes, para (lhe) ficar claro:

Parte I: a exploração mineira, de lítio, ou seja, lá ela qual for, tem graves impactos ambientais. É claro que falando de minerais que têm uma carga poluente (ativa e de extração) como o lítio, o problema se agrava. Há que furar e minar montanhas, o que implica destruir ecossistemas e seus habitats, poluir linhas de água e lençóis freáticos, lançar partículas sobre populações e vegetação, impactar a “matriz sonora” da região, sobrecarregar estradas e aumentar emissões poluentes, tudo num efeito cumulativo incomportável para os ecossistemas afetados pela mineração. Sendo que temos uma Agência Portuguesa do Ambiente que dá pareceres positivos por tudo e por nada, dar “as maiores garantias ambientais” a qualquer projeto, soa a areia (muita areia mesmo) para os olhos - porque, já se percebeu, qualquer impacto ecológico negativo pode ser “compensado” com outras coisas, vá de construir aeroportos, portos profundos, minas e seja lá mais o que for - porque é sempre de “interesse nacional” e isso basta para se poder fazer tudo. Ou seja, em nome do crescimento económico, e uma vez que este esteja assegurado, “as maiores garantias ambientais” são sempre relativas e mormente inconsequentes.

Parte II:  a exploração de lítio e outros minerais necessários à “transição energética” são o maior embuste ecológico alguma vez sugerido. A sociedade já percebeu que as energias “verdes” não são de todo “renováveis” (viva o greenwashing), mas altamente dependentes de toda uma infraestrutura movida a combustíveis fósseis para poder operar. Ou seja, toda a maquinaria para extrair e transformar lítio, bem como todas as cadeias de produção para fabricar painéis solares e turbinas eólicas, baterias, cabos, etc, não são nem verdes, nem renováveis. São apenas mecanismos para manter os nossos insustentáveis níveis de vida e, sempre e sobretudo, o crescimento do PIB, sem o qual o país aparentemente não pode sobreviver. Já com ecossistemas disfuncionais (tipo eucaliptais a perder de vista, rios poluídos ou monoculturas agrícolas infindáveis), ou com uma atmosfera degradada ao ponto de não conseguir manter uma temperatura de sobrevivência no mundo, com esses sim, já pode o país sobreviver...). Extrair lítio "com garantias ambientais” é um greenwashing governamental inaceitável, mesmo criminoso, especialmente numa altura em que entramos nos últimos anos para fazer face ao aquecimento climático e à destruição massiva e continuada de ecossistemas. Pior: O lítio, depois de extraído, vai ser utilizado para fazer baterias, que por sua vez serão utilizadas para alimentar mais e mais novos gadjets, numa sempre crescente produtividade, que implica - novamente! - mais extração de recursos, mais devastação ecológica, mais emissões durante a produção, embalagem e distribuição, mais mais mais, sempre mais… O embuste do “crescimento verde” continua e é cada vez mais perigoso. Desde o aparecimento das energias renováveis que estas aumentam apenas consumo de energia no total, não funcionando - nunca até à data - como verdadeira alternativa às energias fósseis - porque temos sempre de usar mais combustível, para as crescentes cadeias de produção (baseadas nestes combustíveis) necessárias a produzir mais paineis solares, eólicas, etc.

Parte III: Numa coisa o ministro tem razão: “não conseguimos viver na sociedade atual sem o lítio e sem as baterias que ele produz”. De facto, com este modelo de sociedade não conseguimos. Mas com baterias de lítio também não. O impacto ambiental da transição energética é literalmente incomportável. Lá porque uma solução político-económica soa bem às elites políticas, não quer dizer que o ambiente e os ecossistemas concordem – ou se importem. O relançar da economia com base na transição energética que os governos de hoje defendem, é um crime ecológico. O derradeiro crime ecológico, que nos empurra definitivamente para um abismo sem retorno. O que o green deal europeu, a transição energética e o excitamento das elites com o digital e o “verde” significa na verdade, é a abertura de minas (em Portugal e pelo mundo fora), a destruição de ecossistemas, e a emissão global de CO2 em quantidades nunca vistas - para a produção de mais painéis solares, eólicas, baterias e todos os novos carros elétricos, e gadgets, a IOT (internet of things), etc que vai permitir e originar. O ministro, e tod@s nós, temos de perceber, e interiorizar, o que significa continuar por esta via. Na ilusão de deixar de emitir CO2, vamos emitir MUITO mais. Tudo em nome de poder continuar a crescer economicamente e manter níveis de vida insustentáveis. É mesmo essa a nossa estratégia? Parece que sim. É certamente essa cegueira que explica que o ministro não entenda a tal “implicação com o lítio”.

Parte IV, também para ativistas do ambiente: O ministro tem razão numa coisa: custa-lhe “muito a aceitar” que “aqueles que são contra” a exploração deste metal em Portugal “convivam com tanta normalidade com a utilização quotidiana de inúmeras baterias a lítio”. Tem razão, e levanta-nos o véu da hipocrisia. Porque, sim, é normal, saudável e racional não querer ter uma mina aberta na sua região, pelos impactos ambientais, sociais e económicos que força sobre as populações e ecossistemas. Mas ser contra isso “em casa” mas depois querer iPhones, TVs, PCs portáteis última geração e todos os gadgets que a técnica industrial digital proporciona, é ser a favor disso na casa d@s outr@s - o que é hipócrita, e talvez pior. Em Portugal, na Europa, e no mundo, temos de começar a entender – de baixo para cima, porque não será nunca ao contrário – que não podemos continuar neste registro. Temos, urgentemente e custe o que custar, que abandonar esta mineração voraz, esta produção industrial em massa, a poluição ambiental e a destruição ecológica. É normal (quase inescapável) viver nestas contradições. Toda a gente, eu incluído, as vive. Mas devemos estar dispost@s, e fazer tudo ao nosso alcance, para que elas cessem, mesmo se isso implique um decrescimento tecno-material nas nossas vidas.

E sim, já sei. Não é fácil, nem agradável (à primeira vista) de aceitar. Mas é a realidade. E, como já diziam os antigos, “o que tem de ser tem muita força”. Temos urgentemente de decrescer, economicamente e ao nível dos nossos impactos. Temos de reduzir as cadeias de produção, reencontrar a sobriedade na proximidade, reconstruir e capacitar as comunidades locais, e investir em e valorizar tecnologias ditas “doces” - capazes de nos satisfazer as necessidades sem destruir o planeta. Não precisamos de viver vidas uber-tecnológicas, nem precisamos de nos render a um crescimento-a-todo-o-custo que implica minas por todo o lado, fábricas por todo o lado, poluição por todo o lado, precariedade por todo o lado. Não precisamos de ser gurus da transição, nem perfeit@s na nossa vivência num sistema que é absolutamente antagónico a vidas sustentáveis. Mas precisamos de conseguir de forçar o sistema a incentivar um atransição sócio-ecológica, e de o fazer coletiva e colaborativamente.

Precisaremos de lutar, junt@s e com coragem, para reimaginar um mundo pós-crescimento e pós-fósseis.  Precisamos de começar a pensar e investir em soluções realistas e verdadeiramente sociais e sustentáveis, para reinventar o nosso país e o nosso futuro. Precisamos de começar a investir e a incentivar o aparecimento de soluções que resolvam problemas práticos e permitam vidas equilibradas, sóbrias, confortáveis e seguras. Precisamos de visões sociais para além do fazer dinheiro, e do “ter mais”, e do conseguir comprar o último smartphone.  Precisamos de fazer as pazes com o fato de que o nosso modo de vida é insustentável e vai (ter de) mudar, a bem ou a mal. E temos de ter a coragem de implementar essas ideias e visões, porque quanto mais cedo o fizermos, mais possibilidades teremos de conseguir “gerir” essa mudança de paradigma (i.e. antes dos impactos da insustentabilidade do sistema como um todo nos começarem a bater à porta – como a crise do Covid fez, e como farão a próxima crise financeira, social, económica, e ambiental). Temos de aceitar que estamos numa verdadeira luta contra o tempo. Temos de procurar soluções ditas decrescentistas, com uma nova visão de sociedade em todos os sentidos, de forma colaborativa e altamente legitimada por uma alargada conversa social. Ter coragem. Preparar para o que aí vem. Ter uma estratégia concreta e humana, não uma económica e desligada das bases reais em que a nossa vida assenta.

Enfim, esta última parte foi mais orientada para @s ambientalistas, e para tod@s @s que se batem contra a mineração em Portugal e nas suas terras. Sejamos corajos@s, mas também congruentes com a nossa relação com a Natureza. Não esqueçamos a gravidade e estado avançado do problema em nome de um “seria tão bom manter tudo igual”, ou de um “mas economicamente não é possível”....

Voltemos ao Ministro.

Se o Ministro do Ambiente de Portugal continuar a não perceber a “implicação com o lítio”, das três uma: ou deixa pura e simplesmente de ser ministro (porque não é capaz de ouvir as populações, e isso em democracia não é tolerável); ou deixa de ser ministro do ambiente (talvez possa ser ministro da energia ou assim, e deixar de ter de pensar nessas coisas “chatas” e sistémicas como a sustentabilidade e afins); ou ouve, aprende, e tenta encontrar soluções reais e viáveis para um equilíbrio ecológico-sócio-económico, que é para isso que realmente lá está, e para  o que o governo serve (ou deveria servir).

Em qualquer uma das opções, a posição atual não é nem sustentável, nem ambiental, nem aceitável. E começamos a merecer ministros que saibam o que estão a fazer, que sejam verdadeiramente ecológicos, que se batam pela primazia do ambiente e dos ecossistemas – e que ajudem a avançar um novo e verdadeiro paradigma de transição em Portugal, capaz de nos assegurar a tod@s e às gerações futuras uma sociedade segura, justa, estável e em equilíbrio com os ecossistemas e as populações.

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