Quem imagina o futuro?
Publicação de texto de Alcides Barbosa, membro da Rede.
Participarei no evento Megafone, integrado no festival Uncover, organizado pelo Gerador e com apoio da Câmara de Guimarães, entre os dias 12 e 15 de março de 2026. Será um espaço dedicado à reflexão sobre o papel das imagens na construção das realidades sociais e políticas. Como decrescentista, esta participação é uma oportunidade para explorar uma dimensão muitas vezes menos discutida no debate ecológico: o poder das imagens na produção e reprodução do imaginário do crescimento.
A crítica ao crescimento económico tem sido amplamente desenvolvida em termos ecológicos, sociais e económicos. No entanto, o crescimento é também um fenómeno profundamente cultural. Ele persiste não apenas porque está inscrito em instituições, infraestruturas ou indicadores económicos, mas também porque foi naturalizado através de narrativas e imagens que moldam a forma como percebemos o mundo e o futuro.
Ao longo do último século, a cultura visual desempenhou um papel central na consolidação desse imaginário. A publicidade, o cinema, a arquitetura, o design e os media contribuíram para associar prosperidade à expansão material, progresso à aceleração tecnológica e bem-estar à capacidade de consumir. Estas representações não são meramente descritivas: funcionam como dispositivos ideológicos que orientam expectativas coletivas e definem aquilo que parece desejável, plausível ou inevitável.
Nesse sentido, o crescimento económico não é apenas uma dinâmica económica; é também uma narrativa visual persistente. Desde as imagens da modernidade industrial e da produção em massa até às representações contemporâneas de cidades inteligentes, inovação permanente e futuros hiper-tecnológicos, o horizonte dominante continua a ser o da expansão contínua. Mesmo muitas das representações de sustentabilidade permanecem presas a essa lógica, imaginando essencialmente o mesmo modelo de sociedade, apenas mais eficiente ou mais “verde”.
O poder dessas imagens reside precisamente na sua capacidade de tornar certas ideias aparentemente naturais. Quando determinados futuros são repetidamente representados — nas campanhas publicitárias, nos filmes, nos discursos políticos ou na estética das cidades — tornam-se gradualmente o enquadramento implícito através do qual pensamos o progresso e o desenvolvimento.
Hoje, esta questão ganha uma nova dimensão com o desenvolvimento acelerado da inteligência artificial. Sistemas de visão computacional e geração de imagens estão a aprender a “ver” o mundo através de bases de dados gigantescas, compostas por milhões ou milhares de milhões de imagens recolhidas na internet. Essas bases de dados, porém, não são neutras: são elas próprias produtos de uma cultura visual específica, fortemente marcada pelo imaginário do crescimento, do consumo e da expansão tecnológica.
Isto significa que os sistemas de inteligência artificial tendem inevitavelmente a reproduzir os padrões visuais e simbólicos presentes nesses dados. As máquinas aprendem a reconhecer e a gerar aquilo que já foi amplamente representado. Se a cultura visual dominante está saturada de imagens que associam prosperidade à acumulação material, inovação à aceleração e futuro ao crescimento permanente, é esse mesmo imaginário que tende a ser reforçado pelos sistemas de IA.
Esta dinâmica pode também ser pensada à luz do conceito de “monopólio radical” desenvolvido por Ivan Illich há cinco décadas. Illich utilizou este conceito para descrever situações em que um determinado sistema técnico se torna tão dominante que elimina ou marginaliza outras formas de satisfazer necessidades humanas. No contexto contemporâneo, as infraestruturas digitais e os sistemas de inteligência artificial começam a assumir um papel semelhante no domínio da produção simbólica. Se uma parte crescente das imagens, textos e representações do mundo passa a ser mediada por sistemas de IA treinados sobre bases de dados massivas, o imaginário coletivo corre o risco de se tornar progressivamente dependente das lógicas incorporadas nesses sistemas.
Neste contexto, alguns autores têm falado numa possível colonização algorítmica do imaginário. À medida que sistemas algorítmicos passam a intervir na produção, circulação e classificação de imagens, eles influenciam também aquilo que se torna visível, reconhecível ou plausível. Não se trata apenas de automatizar tarefas criativas, mas de moldar — muitas vezes de forma invisível — os limites do que conseguimos imaginar coletivamente.
Refletir sobre o poder das imagens significa, portanto, reconhecer que as disputas em torno do futuro são também disputas culturais e simbólicas. Descolonizar o imaginário implica questionar a aparente universalidade das representações dominantes de progresso e abrir espaço para outras formas de imaginar a vida coletiva, o território e a relação com os limites ecológicos.
Num momento histórico marcado pela intensificação das crises ecológicas e sociais, o trabalho de reimaginar o mundo torna-se parte integrante de qualquer transformação mais profunda. A crise das nossas instituições é também uma crise de imaginação. Se o imaginário do crescimento foi construído através de narrativas, símbolos e imagens persistentes, a construção de alternativas também exigirá novas formas de representação capazes de tornar visíveis outros modos de viver e prosperar.
Questionar as imagens hoje significa também interrogar os sistemas técnicos que estão a aprender com elas. Em certa medida, estamos a ensinar às máquinas não apenas a reconhecer o mundo, mas também a reproduzir os imaginários que o estruturam.
A minha participação como ativista do Decrescimento no Megafone insere-se precisamente nesse esforço de reflexão coletiva: interrogar as imagens que moldam o nosso imaginário e explorar como a cultura pode contribuir para abrir espaço a futuros que hoje permanecem, em grande medida, invisíveis.
(Nota: Este texto foi escrito pelo autor com apoio de ferramentas de inteligência artificial, cuja presença dialoga com as questões tecnológicas discutidas no próprio artigo.)