Rachel Carson - Primavera Silenciosa
O clube de leitura ‘Vozes para Adiar o Fim do Mundo’ promoveu uma sessão em que o livro escolhido foi a obra seminal de Rachel Carson ‘Primavera Silenciosa’. (ver o Caracol XIX - Primavera)
A autora (1907-1964), de formação bióloga marinha, foi considerada uma das escritoras mais respeitadas da América, recebeu várias distinções e prémios, escreveu o texto original publicado em 1962, que despertou um movimento social de consciência ambiental.
O facto de 63 anos após a sua publicação manter actualidade e pertinência, justificou a reedição em 2022 pela Universidade de Lisboa, e da sua leitura verifica-se que existe um paralelismo entre a visão crítica de Carson e a crítica ao sistema económico hegemónico feita pelos decrescentistas, na medida em que ambas enfatizam os impactos nefastos das práticas industriais e económicas descontroladas no ambiente e na saúde humana.

Para incrementar o “apetite” na procura e indagação dos conteúdos, decidi elaborar uma súmula das 17 divisões do livro, recolhendo e transcrevendo os pontos essenciais segundo as minhas sintonias, sensibilidades e proximidades.
1 - Uma fábula para o amanhã. As formas de vida em harmonia com aquilo que as circunda, cidade rodeada por rede de quintas prósperas, com searas e encostas de pomares… as estações do ano… depois aparece uma estranha praga e tudo começou a mudar… desastres sucessivos…uma dura realidade surgiu… não é uma fábula para o amanhã.
2 - A obrigação de suportar. A rapidez das mudanças e a velocidade com que são criadas novas situações seguem o ritmo impetuoso e desatento do Homem, e não o ritmo deliberado da Natureza. A radiação…os produtos químicos…a adaptação exigiria tempo à escala da Natureza, não apenas os anos de vida de um ser humano, mas a vida de gerações… todo o processo está enredado numa espiral sem fim… com pouca ou nenhuma investigação prévia sobre os efeitos…estamos numa era de especialistas em que cada um vê o seu próprio problema e desconhece, ou não quer conhecer, o quadro completo em que este se insere.
3 - Elixires da morte. Cada ser humano está sujeito ao contacto com produtos químicos perigosos desde o momento da concepção até à morte…tudo isto aconteceu devido ao súbito surgimento e ao crescimento prodigioso da indústria… filha da Segunda Guerra Mundial… a guerra… como agentes mortais para o homem…a sua altíssima potência biológica… pesticidas…arsénio…DDT…dieldrina… aldrina…endrina…os insecticidas sistémicos…
4 - Águas superficiais e mares subterrâneos. Existem situações em que a solução de um problema óbvio e trivial cria um problema muito mais sério, mas menos tangível… exemplo dos pescadores desportivos que querem melhorar a pesca num reservatório, convencem as autoridades a despejar veneno para matar os peixes indesejados… depois pagar impostos para fazer processos dispendiosos de tratamentos dos venenos… que são falíveis… porque formam-se espontaneamente outras substancias por ação catalisadora do ar e da luz solar, sem intervenção humana…

5 - Os domínios do solo. A fina camada de solo que forma a cobertura irregular dos continentes determina a nossa existência e de todos os outros animais da terra… a importância da ecologia do solo foi amplamente negligenciada até pelos cientistas e ignorado pelas autoridades… os perigos de usar ferramentas tão potentes e pouco conhecidas como os produtos químicos… podem resultar na destruição da capacidade produtiva do solo, e os artrópodes podem vir a assumir o comando…
6 - O manto verde da terra. O controlo de ervas daninhas pode ser um exemplo de sucesso…assim como tipos de vegetação indesejada prestando atenção ao papel dos insectos… mas a ciência de gestão de pastagens tem ignorado largamente essa possibilidade… podendo ser facilmente utilizadas em benefício do Homem.
7 - A devastação inútil. À medida que o homem prossegue em direção ao seu objectivo anunciado de conquista da Natureza, dirigida não apenas contra o planeta que habita, mas contra a vida com a qual o partilha…matança de búfalos… massacre de aves aquáticas… extermínio das garças… agora novo tipo de destruição de praticamente todas as formas de vida selvagem, graças aos insecticidas químicos pulverizados indiscriminadamente sobre a terra.
8 - E nenhum pássaro canta. A Natureza não tem espaço para acontecer no mundo moderno, inundado de produtos químicos, onde a pulverização destrói não apenas insectos, mas os seus principais inimigos, as aves… quem tem o direito de decidir… é o déspota a quem foi temerariamente delegado o poder…e que a desatenção de milhões para quem a beleza e o mundo ordenado da Natureza ainda tem um significado profundo e imperativo, permite por em prática.
9 - Rios de morte. Há uma preocupação crescente sobre o papel da poluição por pesticidas em estuários, sapais, baías, e outras águas costeiras. Se desviássemos para a investigação construtiva nem que fosse uma pequena fracção do dinheiro gasto todos os anos a desenvolver produtos cada vez mais tóxicos, poderíamos encontrar maneiras de usar materiais menos perigosos e manter os venenos longe dos cursos de água. Quando ficará o público ciente dos factos para exigir tal acção?
10 - Indiscriminadamente dos ceús. A pulverização aérea… uma incrível chuva de morte…a abundância de aviões excedentes do pós guerra… despejam com todo o à-vontade… sobre milhares de hectares.
11 - Para além dos sonhos dos Bórgias. Da maneira que as coisas estão, a nossa posição é pouco melhor do que a dos convidados dos Bórgias…inúmeras exposições de pequena escala a que somos constantemente submetidos… a facilidade de pressionar um botão e enviar uma névoa de dieldrina para cantos e recantos… temos à escolha inúmeras loções, cremes e aerossóis…
12 - O preço humano. Os novos problemas de saúde ambiental são múltiplos… o Homem que faz parte da Natureza poderá escapar a uma poluição que está completamente distribuída por todo o mundo?
13 - Por uma janela estreita. À distancia, só se consegue ver uma fenda de luz, mas à medida que nos aproximamos, a visão fica cada vez mais ampla, até que, finalmente, através desta mesma janela, estamos a olhar para o Universo. Uma imensa quantidade de trabalhos sobre diversos temas, as anomalias, as radiações feitas pelo homem e pelos produtos químicos, as nossas heranças genéticas, o nosso vínculo com o passado e com o futuro.
14 - Um em cada quatro. O ambiente continha elementos hostis ainda antes de existir vida, no entanto surgiu durante milhões de anos em números infinitos e numa variedade sem fim a maioria das doenças infecciosas, que estão agora sob um razoável grau de controle, algumas foram praticamente eliminadas… duas frentes, a imperiosa necessidade de prevenção e os esforços para encontrar a cura…
15 - A natureza contra ataca. Não se molda facilmente… sistema complexo, preciso e altamente integrado de relações entre seres vivos que não pode ser impunemente ignorado, tal como a lei da gravidade… o equilíbrio não é um status quo, é fluido, sempre mutável, em constante estado de ajuste… os programas de controlo de insectos matam todos, amigos e inimigos… a resistência do meio ambiente… o poder explosivo de uma espécie para se reproduzir…
16 - Os rumores de uma avalanche. A pulverização mata os mais fracos, os sobreviventes possuem alguma qualidade inerente que lhes permite escapar… são pais de nova geração com estirpes fortes e resistentes…ficam imunes… os seres humanos podem fazer a mesma coisa? Teoricamente sim, mas demoraria milhares de anos… a resistência não é algo que se desenvolva num indivíduo, três gerações num século… nos insectos é uma questão de dias ou semanas. Alguém diz… precisamos de uma orientação mais nobre e de uma visão mais profunda, a humildade impõe-se, não há desculpas para a presunção científica.
17 A outra estrada. Duas estradas divergem… não são igualmente justas… uma que vimos percorrendo, encantadoramente fácil, imensa auto-estrada lisa, onde avançamos a grande velocidade, em cujo final está o desastre… outra que seja a hipótese de chegarmos a um destino que garanta a preservação da terra. Temos à disposição um conjunto verdadeiramente extraordinário de alternativas ao controlo químico dos insectos… soluções biológicas, todas têm em comum a compreensão dos organismos vivos que procuram controlar, e de toda a estrutura da vida a que esses organismos pertencem… uma nova ciência de controlos bióticos.