6 min read

Decrescimento e o fim da civilização industrial

Depois da notícia na edição especial do Caracol dedicada ao Encontro Nacional na Covilhã em outubro de 2025, este texto procura aprofundar o assunto e partilhar alguns resultados e reflexões da oficina sobre a possibilidade de colapso da civilização moderna.
Decrescimento e o fim da civilização industrial
Foto de Chandler Cruttenden, em Unsplash

Apesar de o relatório sobre Os Limites ao Crescimento, apresentado por investigadores do MIT ao Clube de Roma em 1972, ter demonstrado a inviabilidade do crescimento económico exponencial perpétuo num planeta finito, a trajetória manteve-se inalterada desde então, seguindo de muito perto o cenário do “business as usual”. Este processo veio a ser denominado “A Trajetória do Antropoceno” (Steffen, W., Broadgate, W., Deutsch, L., Gaffney, O., & Ludwig, C. (2015). The trajectory of the Anthropocene: The Great Acceleration. The Anthropocene Review, 2, 81–98), caraterizada pela aceleração exponencial de dinâmicas socioeconómicas e do sistema terrestre. Do lado socioeconómico incluem-se o aumento da população mundial e da população urbana, do consumo de fertilizantes químicos e de energia primária, o uso de água e da produção de papel, o aumento do transporte e do turismo, só para mencionar algumas. Do lado do sistema terrestre aceleram a concentração de dióxido de carbono e de metano na atmosfera, o aumento da temperatura, a acidificação dos oceanos, a perda de florestas tropicais e a degradação da biosfera. Por conseguinte, sete em nove limites planetários já foram ultrapassados, mas os sistemas socioeconómicos continuam assentes na utilização de combustíveis fósseis que, no seu conjunto, representam mais de 80% do consumo de energia primária a nível mundial, apesar das sucessivas cimeiras do clima.

O mundo encontra-se assim numa verdadeira autoestrada para o inferno climático de acordo com Secretário Geral das Nações Unidas, António Guterres (“On a highway to climate hell”), aludindo ao conceito do caminho para a “Estufa Terrestre” (“Hothouse Earth”) que representa a “bacia de atração” do Antropocénico. Com uma abordagem mais abrangente, Richard Heinberg do Post Carbon Institute refere a estas crises como a policrise da degradação ambiental e social ou “The Great Unraveling” (é de anotar que no inglês “unraveling” pode significar desfiar ou desfazer, mas também desvendar, e assim tornar óbvio e visível).

No início da oficina, para dar o mote e perceber onde as pessoas se situavam, pediu-se para se posicionarem na sala de acordo com a sua ideia em relação à probabilidade do colapso acontecer dentro do seu tempo de vida. Foi patente a grande variedade de posições, desde ‘pouco provável’ até ‘já em curso’.

A seguir, as pessoas foram convidadas a partilhar as suas emoções relativamente à perspetiva do colapso, sendo reveladora a grande frequência das palavras “medo”, “ansiedade” e “preocupação”, mas também “raiva”, “tristeza” e “aceitação”, lembrando as fases de luto propostas por Kübler-Ross.

A seguir, exploram-se os elementos de um possível colapso e das implicações que esse teria (ou tem) em nós, na nossa família, na nossa comunidade ou no nosso país.

Aqui as palavras mais proeminentes foram “ignorância”, “instabilidade”, disrupção” e “mudança”, mas também elementos com uma visão claramente negativa como “fome”, “pobreza”, “mal-estar”, “depressão” e “subjugação”. Por um lado, ficou patente que as pessoas sentiam grande incerteza, mas, por outro lado, também estavam preocupadas com os impactos práticos nas suas vidas quando expostas a perda dos confortos que os privilégios da civilização atual ainda garantem.

Falou-se em seguida sobre alguns livros dedicados ao colapso, nomeadamente o bem conhecido livro de Jared Diamond que faz uma exploração empírica de algumas sociedades que colapsaram porque eram incapazes de se adaptarem a circunstância socio-ecológicas emergentes e mudar o seu rumo e o funcionamento do “business as usal”. Numa análise histórica mais sistemática, Joe Tainter refere no seu livro sobre o colapso de sociedades complexas como cada camada de complexidade acrescida exige a mobilização descomunal de recursos cada vez mais escassos, acabando assim num beco sem saída. A recente obra de Lucas Kemp (A maldição de Golias) também analisa os colapsos de sociedade históricas e pré-históricas, fazendo uma espécie de uma meta-análise. Kemp conclui que, em vez de sociedades complexas, seria mais adequado falar em sociedade hierárquicas e cada vez mais desiguais. A construção dessas sociedades dependeria de três condições essências: armas, recursos saqueáveis e territórios cercados. Por fim, o livro do decrescentista Carlos Taibo aborda o colapso do capitalismo terminal e a possibilidade de surgirem movimentos de transição e espaços de auto-organização a dar resposta ao colapso, rejeitando e opondo-se a abordagens autoritárias e eco-facistas .

A seguinte ronda participativa versou sobre estratégias para lidar com a perspetiva de colapso. Apesar de a palavra “decrescimento” surgir apenas uma única vez, o ideário decrescentista foi bem patente, surgindo ideias como “redução do consumo”, “frugalidade”, “colaboração” e “comunidade”, a par de “movimentos sociais” e “processos coletivos”.

No seu texto sobre adaptação profunda, virado para às alterações climáticas e publicado inicialmente em 2018 (atualizado em 2020), Jem Bendell reflete sobre as formas de lidar com a consciência do colapso pendente ou já em curso, propondo uma abordagem baseada em 4 R’s:

  • Resiliência (adaptação às novas circunstâncias e preservação do normas e comportamentos valorizados);
  • Renúncia (acabar com comportamentos e crenças que podem agravar a situação, retirada de zonas costeiras, encerramento de instalações industriais vulneráveis, desistência das expetativas em relação a certos tipos de consumo);
  • Restauração (redescobrir atitudes e abordagens da vida e da organização que a nossa civilização alimentada a hidrocarbonetos corroeu, reflorestação de paisagens, alteração das dietas voltando a corresponder às estações do ano, redescoberta de formas não eletrónicas de jogo e o aumento da produtividade e do apoio a nível comunitário);
  • Reconciliação (reconhecimento da eventual futilidade dos nossos esforços perante futuras situações stressantes e perturbadoras, aceitando o nosso destino final, reconciliação mútua e com a crise que enfrentamos juntos para evitar atuar com pânico reprimido).

Posteriormente, no seu livro ‘Breaking together’, originalmente publicado em 2023 e agora disponível em português (Bambual Editora), Jem inclui a abordagem de outras crises ambientais e sociais e da aceitação do colapso, seguida da exploração de formas a atuar a partir daí. Em jeito de introdução às ideias do Jem, a Rede para o Decrescimento conversou com ele no dia a seguir à apresentação do livro em Lisboa (vídeo disponível no YouTube).

Por sua vez, Vanessa Machado Oliveira, académica e educadora, brasileira com ascendência indígena e alemã, a viver e trabalhar no Canadá, propõe colocar a modernidade nos cuidados paliativos por ser inseparável da dominação, da exploração e da colonialidade. Lembrando que a própria academia tem como objetivo zelar pela manutenção da modernidade, ela identifica quadro formas de negação que são sancionadas pela modernidade:

  • Negação da violência sistémica, histórica e contínua e da cumplicidade nos danos infligidos;
  • Negação dos limites do planeta e da insustentabilidade da modernidade e colonialidade;
  • Negação do emaranhamento (viver dentro de um metabolismo vivo mais amplo);
  • Negação da magnitude e complexidade dos problemas que temos de enfrentar em conjunto.

No entender de Vanessa, tanto espaço de reformas suaves como o de reformas radicais pretendem manter modernidade viva a todo o custo utilizando “cuidados intensivos” e “suporte avançado de vida” quando e preciso passar para um espaço para além das reformas onde reconhecemos que o sistema não está apenas viciado mas danoso e não faz sentido participar nele (há um excelente quadro sobre isso no livro e também neste artigo: de Oliveira Andreotti, V., Stein, S., Ahenakew, C., & Hunt, D. (2015). Mapping interpretations of decolonization in the context of higher education. Decolonization: Indigeneity, Education & Society, 4(1), 21–40). Vanessa é membro do coletivo Gesturing Towards Decolonial Futures e publicou este ano o seu último livro“Outgrowing Modernity”.

As ideias de Jem e Vanessa são complementadas pela proposta do ativista climático alemão Tadzio Müller, desde há muito envolvido nas lutas pelos direitos de portadores do VIH, da comunidade LGBT+, Ende Gelände (pelo fim das minas de carvão na Alemanha), só para mencionar algumas. Na análise de Tadzio, o movimento climático falhou porque pensou que poderia convencer a sociedade maioritária da necessidade de tomar medidas sérias contra o caos climático. No entanto, quando a sociedade maioritária se apercebeu que seria necessário fazer mudanças radicais em relação ao seu estilo de vida, ao seu privilégio e à exploração que suporta esse privilégio, entrou em negação e reprimiu esse reconhecimento. Dado que essa negação tornaria o colapso da civilização industrial ocidental não só inevitável como também mais violento, Tadzio propõe uma preparação solidária para o colapso. Explora esse conceito também no seu blog e coorganizou recentemente um acampamento para o colapso que teve lugar no Nordeste da Alemanha com quase mil participantes.

O workshop terminou com dois desafios para as pessoas se colocarem na sala relativamente à alteração da sua perspetiva sobre o colapso após a participação e se sentiram empoderadas ou paralisadas. Apesar de a maioria das pessoas ter preferido ficar no espaço neutro, houve feedback bastante favorável em relação à oficina no seu todo. No meu entender, é um começo de conversa e espero que também resulte um novo ímpeto para o Laboratório de Experimentação Decrescentista (a ser explorado na respetiva sala no Element). Para quem está interessado no assunto do colapso, fica aqui o link para um grupo no Signal que criei recentemente. No dia 4 de dezembro vou ainda conversar com Tadzio sobre “Engaging the Degrowth Community in the Debate about Collapse: How to move forward in the face of the great unraveling?” num webinar (inscrição) do European Circle do IDN.