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Greve Estudantil Mundial pelo Clima

24 Mai 2019Foi convocada nova Greve Estudantil Mundial pelo Clima para o próximo dia 24 de Maio. A Rede para o Decrescimento subscreveu um manifesto de vários movimentos e organizações nacionais de apoio a mais esta mobilização cidadã.
Está em preparação um comunicado conjunto das redes decrescentistas portuguesa e galega, mas queremos desde já tecer algumas considerações adicionais.Consideramos que as recentes mobilizações internacionais que apelam aos decisores políticos e governantes para fazerem da resolução da crise climática a sua prioridade, em particular aquelas que têm sido protagonizadas pelo movimento de jovens ‘Fridays For Future’ e pelo movimento ‘Extinction Rebellion’, são da maior relevância para aumentar o grau de consciência global e para fomentar acções políticas consequentes em relação à grave crise ambiental planetária. Partilhamos nomeadamente das exigências de mudança radical de paradigma sócio-económico e de contenção da destruição das condições de habitabilidade do planeta (para humanos e não humanos) por interesses económicos sobrepostos a interesses humanos e naturais.1. Consideramos que muitas das medidas reivindicadas (cumprimento de acordos internacionais, neutralidade carbónica, abandono dos combustíveis fósseis, transição para energias renováveis, eficiência energética, ‘empregos verdes’, etc.), embora lícitas e acertadas, não serão suficientes para travar ou mitigar os colapsos ambientais e sociais iminentes.
2. Apoiamos a denúncia da contradição entre os compromissos de descarbonização do governo português (Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050) e a manutenção das centrais energéticas a carvão, assim como dos contratos de prospecção de combustíveis fósseis; mas consideramos que devem também ser exigidas medidas contra a expansão da capacidade aeroportuária e do tráfego aéreo (construção do novo aeroporto do Montijo e ampliação do Humberto Delgado e do Sá Carneiro) que têm pegadas carbónicas insustentáveis. Os pretextos invocados pelo governo para justificar aqueles projectos – aumento do turismo, estímulo da economia e criação de emprego – devem ser denunciados pelos seus impactos negativos, quer ambientais (pegada carbónica do turismo), quer sociais (empregos precários, mal pagos e com baixa protecção social; especulação imobiliária; benefício de interesses financeiros e corporativos).
3. Concordamos que deve ser promovida uma transição rápida para energias renováveis (solar e eólica) mas esta deve ser acompanhada por medidas de redução do consumo energético (e não apenas de eficiência energética) e devem ser tidos em conta os impactos negativos daquelas energias alternativas; nomeadamente, os projectos de mineração de lítio em Portugal, que terão impactos ambientais e sociais negativos nos territórios onde estão a ser implantados.4. Concordamos que terão de ser promovidos os transportes públicos e não poluentes, mas consideramos que devem ser tomadas medidas concretas de reforço e investimento na rede ferroviária nacional e de promoção do transporte ferroviário, nomeadamente como alternativa ao transporte aéreo.
5. Consideramos que as limitações e insuficiências dos acordos internacionais devem ser sublinhadas de forma mais explícita; p.ex.: o facto das metas acordadas não serem vinculativas, a não inclusão das conclusões dos relatórios do IPCC e IPBES mais recentes, a não inclusão do transporte aéreo e marítimo nos acordos.
6. Consideramos que as reivindicações ambientais devem incluir mais explicitamente outras dimensões interligadas da crise ecológica: extinção de biodiversidade, destruição de ecossistemas, sobre-exploração de recursos, desflorestação, agropecuária industrial e intensiva, etc. Consideramos, nomeadamente, que devem ser tomadas medidas imediatas de desincentivo de práticas agrícolas (p.ex. olival e amendoal intensivo) e silvícolas (p.ex. eucaliptal intensivo) insustentáveis e de estímulo a projectos de agroecologia, agrofloresta e de promoção de floresta autóctone.
7. Consideramos que a incapacidade de resolução da crise ambiental não é uma questão de eventual falta de vontade política de líderes e governantes, nem será possível apenas por via tecnológica; requererá o envolvimento de todos os cidadãos no processo decisório e mudanças transversais e profundas dos modelos sócio-económicos, assim como mudanças de estilo de vida das populações privilegiadas dos países mais ricos do Norte global.
8. Consideramos que as recentes declarações de emergência climática,
embora demonstrem o impacto das mobilizações cidadãs, serão inúteis se não forem acompanhas por medidas concretas e urgentes que abranjam as outras componentes da crise ecológica, e se não forem passíveis de efectivo escrutínio democrático.
Não é por tudo isto que deixaremos de apoiar as mobilizações em curso, mas tencionamos pugnar pela transformação sistémica – social, cultural e ética – que será necessária para alcançarmos um futuro ecologicamente saudável e resiliente, e socialmente democrático, justo e solidário.
 

Lançar uma rede decrescentista: um primeiro balanço e perspectivas

10 Janeiro 2019Lançamento de uma rede decrescentista em Portugal: um balanço dos primeiros seis meses
Iniciou-se em 2018 um processo de lançamento de uma Rede para o Decrescimento (Rede DC) por iniciativa de duas pessoas que alimentavam há já alguns anos interesse e afinidades em relação àquele movimento: o Álvaro Fonseca, a partir de Lisboa, e o Jorge Leandro Rosa, a partir do Porto. O processo teve a sua primeira concretização pública com a realização de dois eventos nos espaços associativos Gazua e Gato Vadio, em Julho desse ano, no Porto, para os quais foram convidados dois membros da Rede já existente na Galiza (Rede de decrecemento Eo-navia Galiza O Bierzo), que estava a preparar um congresso que viria a decorrer em Outubro. Foi então criada esta ‘mailing list’ através da qual passaram a ser divulgados os passos seguintes do projecto de Rede nacional, assim como ‘newsletters’ com informações diversas. Seguiram-se dois outros eventos de divulgação do projecto de Rede DC e do congresso galego em Lisboa, no Gaia e no ISCTE, em Setembro. Nessa ocasião juntaram-se ao núcleo dinamizador da futura Rede DC o Hans Eickhoff, em Lisboa, e a Sílvia Belo, no Porto. 
Em Outubro, um grupo de seis pessoas (três de Lisboa e outras três do Porto) deslocou-se a Ferrol, na Galiza, para participar no ‘I Congreso de Decrecemento’, cujo relato foi aqui divulgado. No final de Outubro foi aberta para subscrições uma carta aberta a contestar a ampliação do aeroporto de Lisboa e
a criação de um segundo aeroporto no Montijo. A carta foi enviada ao gabinete do Primeiro-Ministro e fomos informados de que foi reencaminhada para os Ministérios do Ambiente e do Planeamento e Infrastruturas. Esta tomada de posição pública foi, até ao momento, a única que tornou explícita a sua oposição ao incremento da circulação aérea e à expansão aeroportuária. A carta aberta foi convertida numa Petição Pública para angariar novos subscritores. Membros do grupo dinamizador e outros decrescentistas estiveram presentes numa sessão pública sobre contestação ao novo aeroporto no Gaia (Lisboa) em Novembro.
Nesse mês iniciaram-se reuniões presenciais de potenciais membros da futura Rede em Lisboa, nas instalações do CIDAC, tendo-se realizado até ao momento duas (a acta da primeira foi já divulgada aqui e a segunda sê-lo-á muito em breve). Também no Porto se começou a organizar um grupo local, embora diversas circunstâncias não tenham permitido ainda a consolidação deste. Em Dezembro o projecto de Rede DC foi convidado a participar na contestação internacional ‘Climate Alarm’ em Lisboa e no Porto. A ‘mailing list’ do projecto de Rede DC tinha no final de Dezembro cerca de 190 membros. 
Próximos passos de dinamização e consolidação da futura Rede DC
Propõe-se que a Rede para o Decrescimento venha a abranger pelo menos quatro funções:
1) Ser um espaço de debate e de formação nas perspectivas do Decrescimento. A troca de experiências e perspectivas entre os membros é parte integrante desta vertente.
2) Ser um vector de propostas dirigidas à sociedade portuguesa, um veículo de campanhas e outras acções de cariz social e/ou político.
3) Ser uma plataforma de divulgação e apoio mútuo para quem se lança em projectos concretos de Decrescimento, seja no plano individual, familiar, cooperativo/comunitário ou académico.
4) Ligar e potenciar os diferentes indivíduos ou
colectivos que estão a promover reflexões ou práticas relacionadas com o Decrescimento, mesmo que não se identifiquem como decrescentistas.
Um passo importante para concretizar parte daquelas funções será a construção de um website da futura Rede, processo que se iniciou com trabalho sob a responsabilidade do designer Manuel Granja. Para esse fim, foi adquirido recentemente o domínio decrescimento.pt. O website servirá não só de fórum dos membros e amigos da Rede, como será a plataforma em português de divulgação de documentos da Rede e de outros materiais do Decrescimento ou afins a este. Quando a estrutura estiver consolidada, daremos mais informações sobre outras colaborações.
O processo de construção de uma futura Rede DC está longe da sua conclusão, sendo ainda necessária a definição da sua estrutura, funcionamento interno e objectivos estratégicos, mas foram dados alguns primeiros passos. Pretendemos continuar a promover reuniões presenciais, pelo menos em Lisboa e no Porto e abertas à participação de membros de outras regiões, para ir reflectindo sobre aquilo que será a futura Rede DC. As propostas aí reunidas deverão ser compiladas em documentos que serão submetidos a um futuro Encontro Nacional do Decrescimento, ocasião em que a Rede para o Decrescimento será formalmente constituída. Tencionamos organizar um encontro com companheiros da Rede galega em 23 e 24 de Fevereiro, no Porto, e uma sucessão de eventos públicos em Março com a presença de Carlos Taibo, que lançará a edição portuguesa do seu livro Colapso, no Porto, em Lisboa e em Montemor-o-Novo (iniciativa do Jornal Mapa). Tencionamos promover um 1.º Encontro Nacional no Outono/Inverno de 2019/2020 para definir as bases e a constituição da futura Rede para o Decrescimento. Até lá, estará online o website ‘decrescimento.pt’, com funcionalidades que auxiliarão na dinamização da discussão interna entre os seus membros. 
Reflexão sobre os papéis de uma futura Rede para o Decrescimento.As redes decrescentistas constituem movimentos de cidadãos auto-organizados e auto-gestionados em torno das ideias e práticas do Decrescimento, como o que surgiu na Galiza e este que está agora a emergir em Portugal. Os principais papéis que estas redes podem desempenhar são: divulgar e clarificar as propostas de práticas económicas, de modelos sociais e de políticas decrescentistas no espaço público, através de publicações, encontros ou debates; comentar e examinar criticamente as iniciativas ou projectos públicos ou empresariais com impactos ambientais, económicos ou sociais, nomeadamente aqueles baseados em falsas soluções ou em soluções insuficientes ou incoerentes; divulgar, potenciar e ligar projectos e práticas que promovam o decrescimento; promover hábitos e práticas que não alimentem o ‘sistema crescentista’ e que sejam coerentes com as premissas do decrescimento; promover o apoio-mútuo entre aqueles que se retiram, de uma forma ou outra, dos circuitos económico-sociais baseados no crescimento; desenvolver práticas de resiliência interior, interpessoal e social num cenário de crescente crise do modelo industrial e desenvolvimentista. Os decrescentistas estão cientes do desafio que será implementar a verdadeira revolução cultural que permitirá descolonizar o imaginário e desintoxicar as mentes e as narrativas dominantes rumo à utopia concreta advogada por Serge Latouche – estamos convictos de que as redes decrescentistas terão um papel central neste processo, que já está em andamento.

Comunicado de imprensa sobre assinatura de acordo entre o Governo Português e a empresa VINCI AIRPORTS sobre o novo aeroporto no Montijo

7 Janeiro 2019No momento em que se anuncia a assinatura de um acordo sobre o modelo de financiamento de um novo aeroporto civil no Montijo entre o Governo Português e a empresa VINCI AIRPORTS, proprietária da ANA, a Rede para o Decrescimento reforça a sua oposição a este ou a qualquer outro projeto de aumento da capacidade aeroportuária no território português. A Rede para o Decrescimento junta-se a uma frente com dimensão internacional (vide rede global ‘Stay Grounded’) de resistência ao incremento da circulação aérea e à prossecução de uma política em tudo contrária à mais urgente necessidade da Humanidade: parar as emissões de CO2 que estão a destruir o nosso ecossistema, visando particularmente aquelas que ficaram de fora do Acordo de Paris, como as provenientes do tráfego aéreo e marítimo, uma exclusão imoral e desastrosa para todos. Os interesses imediatos das multinacionais do sector e as vantagens imediatistas de um tipo de economia sem futuro são os únicos ganhadores anunciados neste processo.
Opomo-nos, por todos os meios ao nosso alcance, a este empreendimento. Recentemente, foi endereçada uma carta aberta ao Primeiro-Ministro onde explicitámos as razões da nossa oposição (Cf. Carta aberta ao PM e Petição Pública). Aguardamos ainda por um verdadeiro debate sobre o crescimento da circulação aérea que representa um atentado contra o futuro de todos nós neste planeta. Concordamos com os argumentos daqueles que se opõem à escolha desta localização por razões do contexto ambiental imediato e dos impactos negativos nas populações locais. Mas acreditamos que não podemos cair na ilusão de supor que algures possam existir localizações preferenciais onde os danos locais e globais possam ser mitigados. E sublinhamos, porque essa questão não deve ficar esquecida, que nos opomos igualmente ao aumento do tráfego aéreo no Aeroporto Humberto Delgado em Lisboa que, contrariando a tendência atual, deve diminuir para salvaguardar a saúde e o bem-estar da população imediatamente afetada pela sua exploração. Apenas a renúncia a um modelo de sociedade que assenta no crescimento económico infinito e na exploração insustentável dos recursos naturais pode indiciar uma solução para os problemas sociais e ambientais com que nos confrontamos.

‘Climate Alarm’ (Lisboa e Porto)

8 Dez 2018Mensagem da Rede DC lida nos dois eventos, Lisboa e Porto
Estamos aqui como cidadãos empenhados nas propostas do Decrescimento, que julgamos decisivas para a sobrevivência de todos. Enfrentamos uma crise ambiental global de dimensões graves e inéditas, da qual a crise climática é uma das componentes mais visíveis e brutais. A ciência é clara, as evidências inegáveis, e é inaceitável que outros seres humanos, presentes e vindouros, tenham de sofrer as consequências de uma catástrofe causada pelos membros privilegiados de uma sociedade de consumo assente no crescimento económico, na externalização dos impactos ambientais e na distribuição injusta dos impactos sociais. Mas ainda estamos a tempo para mudar de rumo e evitar o pior. Depende inteiramente da nossa vontade como indivíduos, mas também como sociedade.
A CRISE CLIMÁTICA É RADICAL. PRECISAMOS DE SOLUÇÕES RADICAIS. Esta crise está intimamente ligada à crise social e económica global que vivemos e que conduziu a enormes desigualdades e sofrimento, em particular entre os povos do Sul global, mas também nas regiões ditas desenvolvidas em que a riqueza está distribuída de forma muito desigual. Estamos aqui porque os decisores políticos em todo o mundo são cúmplices com este estado de coisas, desdenham os princípios da precaução e da solidariedade social e intergeracional, fingem ignorar que um crescimento económico infinito num mundo de recursos finitos tem tanto de inviável como de absurdo. PERANTE A INSENSATEZ RADICAL, OFEREÇAMOS A NOSSA RESISTÊNCIA RADICAL. Nós, os defensores do Decrescimento, repudiamos todos os modelos socioeconómicos ecocidas e insustentáveis baseados no crescimento permanente da produção e do consumo de bens e serviços, na mercadorização radical, na acumulação e no desperdício. Por isso rejeitamos o capitalismo neoliberal, o extractivismo, o produti-vismo, e a globalização imperialista. Opomo-nos a uma visão do mundo baseada no antropocentrismo, no materialismo, na hegemonia tecno-científica e no patriarcado. Nós, os defensores do Decrescimento, acreditamos que existem formas de viver e prosperar, individual e colectivamente, baseadas nos princípios da ecologia, da justiça social, da equidade e diversidade cultural e de género, assim como da participação democrática. O DECRESCIMENTO É RADICAL PORQUE PRECISAMOS DE IR À RAIZ DOS PROBLEMAS. Estamos aqui porque acreditamos que a visão de uma sociedade decrescentista não é a de uma sociedade menor, triste ou depauperada. A sociedade frugal e sóbria dos decrescentistas é inclusiva e convivial, promove a relocalização das actividades económicas à escala humana, a redução dos horários de trabalho e a reaproximação das pessoas pela utilização da mobilidade suave e partilhada, contribuindo assim para a diminuição da pegada ecológica e para a mitigação da mudança climática. Dizemos não à manipulação pela publicidade e à obsolescência programada que nos atafulham com coisas de que não precisamos, na ilusão de um aumento da auto-estima e do bem-estar, em substituição de relações humanas vibrantes baseadas na autonomia e na liberdade, mas também na responsabilidade ambiental e social. Estamos aqui porque lutamos por modelos de sociedade que nos garantam um planeta habitável e um futuro que valha a pena ser vivido. USEMOS A NOSSA IMAGINAÇÃO RADICAL PARA REINVENTAR O NOSSO MODO DE VIDA.

Aumento do tráfego aéreo NÃO! Economia pós-carbónica SIM! Carta aberta ao PM António Costa e Petição Pública

Outubro-Novembro 2018Carta aberta ao PM António Costa (Out 2018)
Somos um grupo de cidadãos reunido em torno das premissas do Decrescimento (DC). O DC é um movimento plural de natureza política, cultural e prática, que propõe uma transição para um modelo económico e social que reúna as seguintes condições: respeito pelos limites biofísicos do planeta, promovendo a vitalidade e equilíbrio dos ecossistemas e a mitigação das alterações climáticas, de que depende toda a vida, incluindo a humana (sustentabilidade ambiental); gestão eficaz, prudente e justa dos recursos materiais e energéticos (sustentabilidade económica); garantia do bem-estar e da qualidade de vida das populações humanas, presentes e futuras (sustentabilidade social). O DC propõe, no caso das populações cuja pegada ecológica seja excessiva – como é o caso da região de Lisboa – o abandono, de forma gradual mas efetiva, da economia orientada para o crescimento permanente da produção e do consumo, garantindo, ao mesmo tempo, mecanismos de equidade e justiça social. Estes objectivos são incompatíveis com uma economia baseada no uso intensivo de energias fósseis, de que é um exemplo maior a expansão da circulação aérea.
Foi pois com natural apreensão que os abaixo-assinados tomaram conhecimento da intenção do governo presidido por V. Exa. de assinar um acordo com a empresa VINCI AIRPORTS, proprietária da ANA, Aeroportos de Portugal, no sentido de ampliar o Aeroporto Humberto Delgado, possibilitando um aumento do tráfego de 20% nos próximos anos, bem como abrir um novo aeroporto comercial na base aérea do Montijo. Sabendo do genuíno intuito de V. Exa. de governar em favor das pessoas em vez de governar em favor dos interesses dos grandes grupos económicos, como a VINCI, pedimos a V. Exa. e ao governo que preside que reconsiderem a sua intenção de assinar um acordo que acabaria por subordinar as decisões políticas à taxa do crescimento económico como principal indicador, prejudicando a saúde e o bem-estar das populações que supostamente pretendem servir e proteger.
1. Poluição sonora e atmosférica
Atualmente, o tráfego aéreo no Aeroporto Humberto Delgado já causa um impacto negativo significativo em dezenas de milhares de lisboetas, tanto nas zonas residenciais como em zonas de equipamentos escolares, universitários e hospitalares, bem como áreas de escritórios e comércio. O lado mais visível, e sobretudo audível, prende-se com o ruído causado pelos aviões na zona de aproximação e descolagem de voos que, para além do incómodo causado, é fortemente prejudicial para a saúde, particularmente cardiovascular. Estudos científicos demonstraram um aumento progressivo das admissões hospitalares por doença vascular cerebral ou coronária, em função da crescente exposição ao ruído do tráfego aéreo.
O lado menos visível do prejuízo para a saúde reside na poluição do ar num raio de até 10 – 15 km à volta dos aeroportos, sobretudo por óxidos de carbono, óxidos de enxofre, óxidos de azoto e micropartículas em suspensão, com impacto nas doenças respiratórias. Nas populações afetadas, nomeadamente os residentes a jusante dos aeroportos tendo em conta a direção do vento prevalente, como é o caso da maior parte da população de Lisboa em relação ao Aeroporto Humberto Delgado, o impacto pode ser ainda maior do que o impacto da poluição pelo trânsito automóvel, há muito identificado como causa significativa de doenças respiratórias.
2. Alterações climáticas
O Governo Português assumiu o compromisso de neutralidade carbónica em 2050, em conformidade com o Acordo de Paris, o que pode até ser insuficiente e tardio tendo em conta os mais recentes dados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). O aumento do tráfego aéreo, um dos grandes responsáveis pelo aumento de emissões de CO2, para além de outros efeitos nocivos com impacto nas alterações climáticas, não é compatível com este compromisso assumido nem com os princípios da justiça climática.
3. Turismo, habitação e economia local
Um dos objetivos do aumento do tráfego aéreo é o incremento do número de turistas que visitam a cidade de Lisboa e os seus arredores. Atualmente já existe um forte impacto negativo do fluxo de turistas no que diz respeito à disponibilidade de habitação acessível para a população residente, bem como à descaracterização dos bairros históricos da cidade que se estão a converter em museus a céu aberto com a profusão do comércio dirigido a turistas. Acresce que a actividade turística tem também, para além do impacto ecológico das deslocações em si mesmas, consequências locais e globais que se refletem na pegada ecológica.
Senhor Primeiro-Ministro, sabemos que está empenhado em zelar pelo bem-estar e pela saúde da população portuguesa, pelo cumprimento dos compromissos assumidos a favor da sustentabilidade climática e pela preservação do património e da cultura portuguesa.
Diga NÃO a uma conceção dos sistemas de transportes que hipoteca a possibilidade de uma economia pós-carbónica.
Diga NÃO ao aumento do tráfego aéreo e a abertura de novos aeroportos próximos de zonas residenciais.
Diga NÃO à assinatura de um acordo que apenas serve à obtenção de lucro pela VINCI Airports, em detrimento da saúde e do bem-estar da população que o governo presidido por V. Exa. tem a obrigação de proteger.
Diga SIM à redução do tráfego aéreo e à melhoria da qualidade de vida dos habitantes da área metropolitana de Lisboa.
Diga SIM a uma visão do futuro que permita viver num meio ambiente saudável.
Diga SIM a um modelo económico inclusivo onde as pessoas estão no centro, assente no comércio e na produção locais e numa política de habitação de proximidade.__________________________Texto Petição Pública (Nov 2018)“Aumento do tráfego aéreo NÃO! Economia pós-carbónica SIM!”
O actual governo está empenhado em alargar o aeroporto da Portela e em promover a construção de um novo aeroporto no local da actual Base Aérea nº6 do Montijo, que deverá ser concessionado à ‘Vinci Airports’, mega-operadora aeroportuária global de origem francesa, proprietária da ANA. O governo tem invocado um suposto ‘consenso nacional’ e usado a narrativa da urgência e da inevitabilidade como resposta ao aumento do tráfego aéreo devido à procura turística, outra alegada inevitabilidade, podendo o actual número de mais de 26 milhões de passageiros anuais vir a duplicar com o novo aeroporto em operação. Esta suposta inevitabilidade choca de forma condenável e vergonhosa com a necessidade urgente de suspender a utilização de combustíveis fósseis devido ao gravíssimo problema da mudança climática, esse sim urgente e potencialmente irreversível. Choca também gritantemente com os compromissos de descarbonização das economias por parte dos governos europeus, incluindo o português.
Para além das questões ambientais graves e dos impactos negativos para as populações locais enfatizados pela Zero e pela Plataforma Cívica BA6-Não, que contestam também a construção do novo aeroporto, os decrescentistas defendem que a prossecução de todos os projectos que promovem o incremento da circulação aérea, cuja pegada ecológica se reflete em todo o território, deve ser claramente repudiada.
A sociedade não pode continuar a trilhar cegamente a senda da auto-destruição, uma via que conduz directamente ao precipício ambiental, social e político. Nessa via, não há localizações inofensivas para as estruturas aeroportuárias nem empreendimentos de um sector hiper-protegido compatíveis com qualquer «transição energética». Por isso, os decrescentistas assumem de forma inequívoca a sua oposição a todo e qualquer projecto de construção e/ou alargamento de aeroportos.
Há um limiar a partir do qual o incremento ilimitado dos consumos energéticos, do uso dos recursos e da actividade industrial se volta contra os povos. No ponto em que estamos, o crescimento é cada vez menos favorável às populações e beneficia quase exclusivamente os grupos privilegiados. É tempo de decrescer voluntariamente, redistribuindo e redefinindo a partilha social dos recursos.
Dizemos NÃO a uma concepção dos sistemas de transportes que hipoteca a possibilidade de uma economia pós-carbónica.
Dizemos NÃO ao aumento do tráfego aéreo e à abertura de novos aeroportos próximos de zonas residenciais.
Dizemos NÃO à assinatura de um acordo que apenas serve à obtenção de lucro pela VINCI Airports, em detrimento da saúde e do bem-estar da população.
Dizemos SIM à redução do tráfego aéreo e à melhoria da qualidade de vida dos habitantes da área metropolitana de Lisboa.
Dizemos SIM a uma política de transportes e a uma visão do futuro que permitam viver num meio ambiente saudável.
Dizemos SIM a um modelo económico inclusivo onde as pessoas estão no centro, assente no comércio e na produção locais e numa política de habitação de proximidade.