Do Crescimento ao Decrescimento

Só se compreende a proeminência e a urgência que damos à palavra «decrescimento» se se perceber que uma parte significativa das sociedades humanas percorre hoje um caminho de crescimento sem escalas ou regulações que permitam adequá-lo ao meio ambiente, sem decisão política sobre as transformações que ele transporta consigo e sem um sentido de justiça e dignidade humana que o modele. Transformado em único valor das sociedades modernas, o crescimento tornou-se uma dinâmica vazia de propósito, uma vez que tudo o mais passou a ser-lhe sacrificado. Esta dinâmica passou a justificar tudo e o seu contrário: mesmo no momento em que nos confrontamos com os limites do planeta, o crescimento é ainda convocado para justificar dinâmicas e tecnologias que supostamente nos permitiriam arrepiar caminho e sair da senda do crescimento infinito, que o consenso geral parece agora considerar suicida. Mas basta olharmos em volta para percebermos que o crescimento aprende agora a esconder, a deslocalizar ou a mentir sobre a sua força destrutiva, que permanece entre nós e nos empurra, dia a dia, para os mesmos desastres.

O decrescimento permanecerá enquanto dele necessitarmos. Ao contrário do seu antónimo, o «decrescimento» não é nem poderá vir a ser um vocábulo omnipotente e quase «divinizado» nas sociedades contemporâneas: ele só faz sentido – e todos os dias faz mais sentido – perante uma generalizada aceitação acrítica do crescimento. O decrescimento é a crítica do crescimento, não do crescimento per si, mas da sua infinitização. O decrescimento é uma aprendizagem que traz consigo as suas dificuldades, espantos e satisfações. O decrescimento não é uma crença nem um partido, embora comporte uma dimensão pessoal e uma dimensão política. O decrescimento não suporta uma economia que não seja uma crítica daquilo em que se transformou a economia. O decrescimento só pode ser feito no modo da redistribuição: redistribuindo os limitados frutos da terra e respeitando os inúmeros modos de vida que decorrem dessa redistribuição. Se o crescimento nos encerra a todos num modelo único, que vemos, com mais ou menos desvios, tornar-se cada vez mais omnipresente, o decrescimento permitir-nos-á desabrochar e ser resilientes num mundo tão diverso quanto o são as suas biorregiões.

Jorge Leandro Rosa