A Web Summit ou o crescimento no pós-mundo

Anualmente, por esta altura, instala-se uma euforia no ar em Portugal: a euforia da Web Summit. É um acontecimento litúrgico, um ritual optimista, um regresso à crença no futuro. Não interessa tanto quais são as tecnologias aí anunciadas: o que se anuncia é o facto de continuar a haver tecnologias, tanto mais acolhidas com entusiasmo quanto mais forem um desdobramento das técnicas já conhecidas. É que, ao contrário de imaginários como o de Júlio Verne, aqui não há já um mundo vasto que se pode ir encolhendo à medida que o engenho humano o percorre de lés a lés. Na Web Summit, é o nano-mundo dos electrões que capta toda a atenção, são eles que «viajam» pelos chips, é a eles que se pedem histórias e encontros surpreendentes. Por conseguinte, no espaço de um século, o narrador tecnológico mudou: já não somos nós que domesticamos o mundo, mas é o mundo domesticado que nos integra nos seus viveiros electrónicos. E nós ficamos contentes: «é um mundo à nossa imagem, o que pode daí vir de mal?»

O problema não está na transferência do imaginário, atribuindo-o a outras vozes, uma prática que caracteriza a arte, a magia, as possessões, os ritos, uma miríade de processos de despossessão das narrativas. Sempre precisámos que outros contassem as nossas história a partir de uma posição exterior ao humano, à mente e ao quotidiano. O problema é que estas tecnologias, a imensa maioria daquelas que são publicitadas na Web Summit, não pretendem já ter mundo e apresentam-nos uma experiência que dispensa a heterogeneidade do mundo. Os mitos que falavam com as vozes estranhas de pássaros, deuses, astros, faziam-no a partir de uma experiência partilhada no mundo. Isso já não é suposto acontecer, a não ser como cenário esvaziado. O inimigo da actual «revolução» tecnológica é o mundo e a sua diversidade.

Na verdade, o mundo é o inimigo do crescimento. Pela simples razão de que a finitude do mundo é o obstáculo mortal ao crescimento infinito. Enquanto nas Exposições Universais do virar do século XIX para o XX, o mundo ainda era cobiçado, ainda parecia um lugar com alguns mistérios, com alguma grandeza, agora o mundo está reduzido a um planeta ridiculamente pequeno e escasso. Voltar a fazer do mundo um lugar rico , misterioso e aventuroso implicaria reduzirmos a escala dos nossos investimentos. Essa hipótese, que aterroriza os acólitos do Web Summit, tem de ser afastada a todo o custo. É por isso que estas assembleias preparam o pós-mundo, mesmo se vão dizendo que pretendem salvar o mundo. No pós-mundo só é necessário um resto de mundo, o suficiente para manter serviços logísticos a funcionar. É por isso que os inimigos do mundo se dizem seus «amigos»: para ganharem tempo enquanto preparam a fuga do mundo, a virtualização do mundo, a petrificação do mundo.

«Seja qual for o nível tecnológico actual de um país, mal aparece a aceleração tecnológica, aparece a mística com ela.»(1) O que é curioso é que estas liturgias sejam tão fervorosamente acolhidas entre nós. Ou talvez não: Portugal gosta de tecnologias gadget, que o divertem e lhe dão a sensação de participar nalguma vanguarda do nosso tempo. Mas por detrás do gadget, que está necessariamente ligado, estão outras estruturas que crescem com a nossa diversão e o nosso entusiasmo.

Este ano, apareceu um dissidente no grande ecrã da Web Summit: Edward Snowden. Um verdadeiro dissidente é aquele que começa por acreditar. Sakharov também acreditava na ciência soviética. Depois, progressivamente, foi descobrindo que essa ciência dependia do sistema totalitário, que era parte do sistema totalitário. Também Snowden acreditava no maravilhoso mundo da informação. Entretanto, algo aconteceu que pôs em causa a sua fé. O dissidente nunca começa por questionar de forma abstracta os seus objectos de fé. Antes descobre uma disfunção, algo que começa por perturbá-lo intimamente, um detalhe, uma função que vai contaminando outras partes do sistema técnico em que trabalha, até que tudo começa a ruir na sua visão do mundo, como se fosse um castelo de cartas.

Snowden apareceu no ecrã gigante do Web Summit com aquele seu rosto perpetuamente triste mas doce (também Sakharov tinha essa expressão). O que fazia esse rosto de uma melancolia gigante nos milhões de píxeis do palco dos entusiasmos? Dizia-nos o óbvio: que as tecnologias da informação se organizam em torno do controlo e da manipulação. «A lei não é a única coisa que nos pode proteger, a tecnologia não é a única coisa. Nós somos a única coisa que nos pode proteger»(2). O discurso de Snowden afastou-se da crença nas tecnologias. Tornou-se um discurso ímpio, céptico, talvez libertário. Mas colocá-lo no palco dos crentes tem um efeito perverso: significa que, hoje, os dissidentes já não são encerrados no hospital psiquiátrico, mas antes aprisionados na gaiola electrónica do vedetismo mediático. O Snowden que apareceu no Web Summit, e que disse a verdade, é um prisioneiro – como todos nós – do crescimento que está a destruir o mundo, e nós com ele. Como o crescimento não contém nem necessita de uma verdade, a verdade enunciada por Snowden pode perpassar quinze minutos pelos ecrãs. É que a produtividade contínua de «verdades», o seu encadeamento em longas séries digitais, as vai integrando na mentira e dando origem ao tecido sem mundo em que nos querem envolver. Logo a seguir, o ministro da economia deste Estado vassalo, Pedro Siza Vieira, veio ao palco repetir a invocação dos verdadeiros acólitos: «Se olharmos dez anos para o futuro, a única coisa de que podemos ter a certeza é que o ritmo da mudança vai-se tornar ainda mais rápido». Disse a verdade que permite continuar a mentira: o futuro tem dez anos. Depois, apaga-se. Sem crescimento não há futuro. Nada mais conta, muito menos este mundo.

Jorge Leandro Rosa / Rede DC

(1). Jacques Ellul, The Technological Society, Vintage, Nova Iorque, p. 422
(2). Snowden in Público, 5 de nov. de 2019, pp. 2 e 3