Porquê resistirmos a novos aeroportos (ou a alargamentos dos existentes)?

by | Mar 6, 2019 | aeroporto, campanha, Opinião e Análise | 0 comments

Eis algumas notas pessoais a propósito da Carta aberta que a Rede endereçou ao Primeiro-Ministro. Poderão entendê-las como considerações que surgiram quando tomei conhecimento da aceleração dos projectos aeroportuários, mas que não tinham lugar na Carta, fruto de uma elaboração comum.

Os decrescentistas têm um conjunto de razões para enviar esta carta e nem todas são aí explicitadas em virtude da finalidade desse documento. Alguns amigos foram surpreendidos pela cortesia da sua «retórica», esquecendo que a nossa posição não pode passar pelo ataque pessoal, que seria uma imediata distracção da clareza do nosso propósito.
O importante é sublinhar a inequívoca oposição a todo e qualquer projecto de construção e alargamento de aeroportos, assim como a recusa de qualquer incremento da actividade aérea. É esse o ponto de partida da nossa Carta aberta. Ela pode ser vista como uma recordatória da parte emersa do icebergue voador: o que é dito na Carta é quase parte do senso-comum nos dias que correm. Dito isso, acrescente-se que temos – é evidente – sérias dúvidas de que o senso-comum (ou o grau mínimo da decência) abunde nas esferas governamentais. Daí a utilidade da Carta, em Portugal ou em muitos outros lugares.
A parte imersa do icebergue é naturalmente aquela invisível e que mais nos ameaça. Os governos implantados num mundo à beira do desastre persistem em vender-nos a normalidade do «progresso» e do crescimento. Essa normalidade está a destruir as bases de tudo à nossa volta e acabará por nos atingir directamente. No cenário quotidiano da destruição planificada, a indústria do transporte aéreo tem uma gravidade particular, indiciada pela sua «inexplicável» ausência no quase defunto Acordo de Paris sobre a Mudança Climática. É um crime contra a vida, o clima e os territórios das nossas existências. É um genocídio sob uma forma lúdica e participativa. O uso maciço do avião, longe de ser uma democratização (um «direito humano», como também já vimos escrito) da cultura e do recreio, tornou-se um dos vectores da monocultura turística e dos cultos do modo de vida globalizado. Usos porventura pertinentes tornaram-se residuais. Nada – para além do propósito de manter os aviões no ar e a circulação financeira em fluxo – tem aí verdadeiramente sentido.

Podemos dizer que a sociedade industrial vai gastando assim os últimos cartuchos do seu modo de vida. Em muitos lugares onde se está a tornar manifestamente difícil sustentá-lo, os poderes económicos e políticos optam por apoiar discretamente a extrema-direita. Ela não está interessada em reverter as políticas industriais e financeiras das elites que critica: quer torná-las ainda mais virulentas, dispensando todo os mecanismos reguladores do liberalismo, que nasceram com o Fordismo e com as suas políticas de integração pelo consumo.
Em Portugal, ainda não há uma extrema-direita relevante, bastam os automatismos crescentistas apoiados por um governo de esquerda. Entretanto, ninguém está a preparar o país para o que já está a decorrer: exposição extrema à mudança climática, genocídio das espécies e colapso alimentar, crise da União Europeia e do seu modelo neoliberal, crise energética, crise financeira do sistema de interdependência mundial, regresso ao belicismo. Muitos portugueses voltaram a endividar-se, voltaram à circulação automóvel maciça, à especulação imobiliária, à predação ambiental e a uma quase total cretinização da vida pública. Fazem-no, não por serem cretinos, mas por viverem mergulhados no cretinismo da nuvem publicitária. Tudo com a bênção das forças políticas existentes.
Não espanta, portanto, que o Governo e as empresas não esperem grandes resistências aos seus projectos. O Ministro «do Ambiente e da transição energética», figura construída à imagem da hipocrisia dos seus pares europeus, veio dizer que o novo aeroporto do Montijo «não requer avaliação ambiental». Embora possamos compreender a estratégia que a Zero colocou na sua exigência, julgamos que não é de uma avaliação ecológica do meio imediato, a que o ministro aliás se recusa, de que necessitamos, mas de uma avaliação de largo espectro, que inclua os chamados objectivos carbónicos do país e os cenários do futuro. A que se vem juntar uma concepção ética na relação com os cidadãos que permita finalmente um debate aberto sobre o que está verdadeiramente em questão.
Felizmente, não estamos sozinhos na luta contra o aeroporto: outros se opõem, por diversas razões, e a eles nos juntamos. Mas os decrescentistas trazem uma visão que julgo incontornável. É uma visão entendida por todos: a sociedade não pode continuar cegamente na senda da auto-destruição, uma via aberta em direcção ao precipício ambiental, social e político. Nessa via, não há localizações inofensivas para as estruturas aeroportuárias nem empreendimentos de um sector hiper-protegido compatíveis com qualquer «transição energética».
Vivemos numa sociedade capturada pela irrelevância dos discursos públicos: ela manifesta-se na dissociação extrema entre a política e os acontecimentos, na fractura entre as políticas económicas do espaço europeu e os objectivos «verdes» da UE. E quanto mais irrelevante é o discurso público, mais o espaço social é cruzado pela desinformação permanente, por doses maciças de publicidade, pelo discurso do medo, sempre o medo do outro, nunca de nós mesmos ou dos que dizem representar-nos.
Para deixar de ter medo, basta lembrar que milhares de pessoas de todas as proveniências se uniram para derrotar o projecto do Aeroporto de Notre Dame des Landes, em França. E é preciso saber que o Estado francês veio a desistir do projecto já este ano, após 45 anos de resistência (como podem ler na revista Flauta de Luz, nº 5, pp. 162-184). Para deixar de ter medo, é preciso saber o que somos: «Nós não defendemos a natureza. Nós somos a natureza que se defende».

Jorge Leandro Rosa