Testemunhos sobre o ‘I Congreso de Decrecemento’

by | Mar 6, 2019 | Uncategorized | 0 comments

Out 2018:Testemunhos de membros da Rede DC sobre o ‘I Congreso de Decrecemento’ organizado pela ‘Rede de Decrecemento Eo-navia|Galiza|O Bierzo’, 6-7 Out (Ferrol, Galiza)

Álvaro Fonseca

A minha participação neste congresso, como membro do grupo dinamizador do projecto de rede para o decrescimento em Portugal, teve dois aspectos positivos principais: o aprofundamento de laços entre as pessoas do grupo português e com os nossos companheiros galegos (componente convivial) e a oportunidade de acompanhar de perto o processo de construção da rede galega já em marcha (componente de aprendizagem). Durante a viagem a partir de Lisboa tive a oportunidade de ler os relatórios temáticos que foram submetidos ao congresso, elaborados por nove pessoas que fizeram também parte da organização do congresso. Foi uma forma de adentrar as questões prioritárias para as pessoas da rede galega e as realidades daquele território. Ao fim da tarde do dia anterior ao início do congresso tivemos um primeiro encontro convivial entre o grupo português e os principais impulsionadores da rede galega e do congresso (Begoña de Bernardo e Miguel Anxo Abraira), que eram simultaneamente os anfitriões da casa de turismo rural onde ficámos alojados (Casa Pousadoira) e que, soubemos então, abriga também um centro para a resiliência local, promovendo diversas jornadas, cursos e oficinas. No encontro participaram também Iolanda Teixeiro Rey (membro local da rede galega e relatora e co-organizadora do congresso) e outros decrescentistas convidados para o congresso: Teresa Moure (Santiago de Compostela) e Carlos Taibo (Madrid). Nesse primeiro momento o Miguel deixou bem clara a intenção de fortalecer os laços de cooperação entre a rede galega e a rede portuguesa, promovendo interacções directas de apoio mútuo e colaborações em projectos editoriais (virtuais ou em forma de jornal/revista). O convívio culminou com uma saborosa refeição preparada pelos anfitriões com base em produtos locais. O primeiro dia do congresso, que decorreu no Ateneu Ferrolan no centro de Ferrol, foi dedicado em boa parte à apresentação, discussão e aprovação dos relatórios submetidos ao congresso. As sessões não foram muito participadas, mas foi possível cumprir o objectivo de aprovar os 8 relatórios temáticos que tiveram algumas emendas pontuais. Foi ainda proposta e aprovada uma alteração de fundo do nome da rede galega de ‘Rede de Decrecemento’ para ‘Rede para o Decrecemento’. Depois de uma breve apresentação de algumas das organizações convidadas (entre as quais o projecto de rede portuguesa), a sessão da tarde culminou com uma sequência de palestras curtas seguidas de debate com a audiência que enchia então o auditório. Entre os diversos assuntos abordados pelos intervenientes destaco apenas dois: por um lado, a importância de encontrar formas de participação política dos decrescentistas que dêem visibilidade às suas posições mas sem se deixarem manipular ou apropriar pelas estruturas partidárias institucionais; por outro lado, a importância de transmitir as mensagens da frugalidade e simplicidade evitando a conotação com o saudosismo, o miserabilismo ou a tecnofobia, assim como a de desconstruir as narrativas falaciosas ou insuficientes da transição energética, desenvolvimento sustentável ou da economia verde. Como reflexão pessoal, retive de ambas as sessões a importância de evitar usar no discurso público decrescentista palavras como capitalismo ou ecofeminismo que podem gerar equívocos ou rejeições contraproducentes. Aqueles termos podem ser substituídos por expressões como práticas capitalistas ou práticas ecofeministas, explicando o seu significado de forma sucinta e clara. Muito mais do que anti-capitalista o DC é para mim anti-produtivista, anti-extractivista, anti-imperialista, anti-mercantilista e anti-fascista. O primeiro dia culminou com um convívio numa ‘cafeteria’ local e um magnífico recital pelo sanfonista Ariel Ninas. No segundo dia a manhã foi dedicada a actividades menos intelectuais e mais manuais, com oficinas diversas para todos os gostos. Eu participei numa excelente aula de tai-chi orientada pela Iolanda Teixeiro que é também professora desta arte marcial oriental cuja filosofia tem muito de decrescentismo. O congresso encerrou com música na rua e uma intervenção final de Carlos Taibo que, no seu estilo muito directo e desassombrado, defendeu o caminho decrescentista para a transição eco-social que ainda é possível fazer. Foram três dias intensos e prazerosos que me fizeram sentir mais confiante e empenhado em levar para a frente a co-criação e construção de uma rede para o decrescimento em Portugal.

Ivo Gomes Francisco

Começaria por destacar o modo bastante acolhedor como fomos recebidos e alojados no Centro para a Resiliencia Pousadoira, de Begoña de Bernardo e Miguel Anxo Abraira, eles próprios grandes impulsionadores do “Decrecemento” na Galiza, fazendo-nos partilhar de um ambiente de grande cordialidade, a “lembrar” um futuro pós-industrial.

No encontro que se seguiu à nossa chegada, com elementos da comissão organizadora do Congresso e alguns convidados, foi estimulante ouvir dos anfitriões o desejo de estabelecer formas de cooperação com a prevista rede de decrescimento portuguesa.

Os dois dias do Congresso permitiram-nos:

a) ter uma ideia da actual “dimensão” da Rede galega e consequente grau de adesão da população local;

b) constatar o modo de organização e o desenrolar do próprio Congresso;

c) conhecer as principais preocupações e objectivos da Rede, com destaque para o exercício de influência nas decisões políticas do país, afastando a ideia do movimento se constituir em partido político;

d) tomar consciência do quão importante é o cuidado a ter no tipo de discurso sobre o decrescimento, termo já por si não motivador face ao conjunto de crenças e modos de pensar da generalidade das populações.

Por último, uma palavra de agradecimento por tudo o que refiro acima, especialmente pelo que relato no primeiro parágrafo mas também pelo companheirismo vivenciado entre todos os elementos da participação portuguesa.

Pedro Nogueira

O Decrescimento é uma perspectiva”. Assim o afirmou Carlos Taibo, no que suponho como a assumpção do Decrescimento como noção orientadora. E foi precisamente pela busca de perspectivas, ou de sentidos orientadores – que nunca poderão ser reduzidos a uma via de sentido único – que me desloquei a Ferrol.

Contudo, se a noção de perspectiva supõe uma abordagem distanciada, o Decrescentismo centra o seu debate na urgência da proximidade, partindo de uma acção atenta ao local em que se funda, sem perder de vista os desafios da Humanidade.

Para isso, e desde logo, é preciso TEMPO, noção central para o debate decrescentista.

Se a forma como pensamos determina a forma como conhecemos e actuamos, precisamos de tempo para voltar a atenção para o próprio pensamento, reconhecendo a multiplicidade de considerações e possibilidades críticas acerca da realidade. Só reduzindo a velocidade se obterá um ganho efectivo de tempo para a reflexividade da acção, contrária a uma especialização alienante, na automatização e simplificação de práticas e culturas. Significa isto, que o pensamento descrescentista determina a compreensão do CONTEXTO como matriz da acção, em consonância com o mundo natural, o seu tempo e as suas contingências. “Voltar à terra”, é neste sentido voltar ao tempo da terra, e aos contextos por si determinados.

Como resumo, poderei ainda dizer que a participação no Congresso reforçou a minha perspectiva do Descrescimento como OPORTUNIDADE. De simplificar sem ser simplista, valorizando e vivendo o essencial, construindo significações das quais participamos activamente.

Resta-me agradecer a todos os amigos galegos que tão bem me receberam, e a todos os amigos portugueses que tanto partilharam. Foi um fim de semana com tempo, contexto e oportunidade, na procura de uma escala de compreensão e acção, sabendo que há tantos que já o fazem, e tantos outros que em breve se juntarão.

Herculano Lapa

A viagem que se realizou à Galiza, correu no ambiente bastante amistoso e animado, e tivemos uma excelente recepção da parte de Begoña de Bernardo e Miguel Anxo Abraira e de um modo geral das pessoas ligadas à Organização do Congresso para o Decrecemento. A iniciativa a meu ver primou por um bom funcionamento quer nas votações do congresso, como também as comunicações ao Congresso; os debates foram animados e esclarecedores dos propósitos do Decrescimento. Pela minha parte revejo-me mais nas propostas que foram mais desenvolvidas por Jorge Leandro, Carlos Taibo e Teresa Moure no que se refere à crítica da sociedade de consumo e da sociedade industrial, na busca de soluções de carácter comunitário, democracia directa e autogestão, como saída para o capitalismo.

Luís Camacho

Foi com muito prazer que assisti ao congresso de decrescimento. Galiza é um sítio especial com serras de uma fertilidade por mim nunca antes vista. E especiais são também as pessoas que lá conheci, que se recusam a fechar os olhos e a baixar os braços aos problemas ambientais que temos pela frente.

Um obrigado especial à Begoña e ao Miguel por me acolherem em sua casa. Lá ocorreu um jantar com pessoas que partilham o interesse pelo decrescimento e que para mim foi muito importante.

O primeiro dia do congresso foi dedicado à aprovação de um documento anteriormente partilhado pela organização. Gostaria de realçar o direito a ter uma terra para plantar os próprios alimentos “Leira Básica” e o forte movimento de ecofeminismo na Galiza.

O segundo foi dedicado a workshops. Assisti ao workshop da Begoña sobre como trabalhar a lã. Também consegui assistir a um pouco do workshop sobre produção de leite vegetal.

Queria agradecer à Iolanda. Não pude ir à sessão de Tai Chi mas tentarei experimentar cá por Lisboa. Os meus agradecimentos às restantes pessoas que conheci de Portugal – Ivo, Pedro, Herculano – e de Espanha – Maria, Carlos Taibo, Teresa Moure. Há muito a fazer e é bom saber que não estamos sós.

Até ao próximo congresso, quem sabe aqui em Portugal.

Jorge Leandro Rosa

O decrescimento galego

O Congresso galego do decrescimento teve uma maior participação de portugueses do que de outras nacionalidades de Espanha. É um facto suficientemente raro para se justificar que o sublinhe aqui. Talvez propositadamente, a lógica do Estado-nação não funcionou neste Congresso. De entre os presentes em Ferrol que não eram galegos, fomos certamente os mais intervenientes e os mais próximos do núcleo que tem animado a movimentação decrescentista em terras galegas. Tudo isso foi fruto da aproximação que teve início há cinco meses com o convite para as sessões realizadas no Porto. Penso que posso chamar-lhe uma aproximação entre vizinhos, embora seja muito mais do que isso: trata-se de uma aproximação entre pessoas culturalmente diferentes que partilham a verificação da situação perigosíssima a que a sociedade e a natureza chegaram hoje.

E devo sublinhar que este foi um Congresso grassroots (a partir do empoderamento local), muito apoiado em movimentos sociais e em associações que têm vindo a fazer um trabalho persistente e de grande qualidade. De entre estas, cumpre destacar a Véspera de Nada, associação dedicada ao chamado «pico do petróleo», ou seja, à crise de produção de petróleo que a curto prazo se tornará manifesta nas nossas sociedades sustentadas pelas energias carbónicas. Pertencem à Véspera de Nada muitos dos principais animadores da Rede Galega, facto que me parece fornecer um alicerce seguro e muito bem pensado ao decrescentismo galego. Ao contrário de outras latitudes, onde a reflexão sobre estes processos está quase inteiramente sediada nas Universidades, aqui, havendo embora companheiros que estão na Academia, tudo está enraizado nos espaços sociais e associativos, assim como numa certa movimentação política com origem quer em pessoas que se foram afastando do nacionalismo galego, quer de outros que passaram ou permanecem nos movimentos libertários.

Caracterizando brevemente a Véspera de Nada, direi que o número e a qualidade de estudos por esta publicados desde 2008 são indicadores do caminho que levou à constituição da Rede: desde Límites Revisitado, unha revisión du debate sobre límites do crecemento até A Esquerda ante o colapso da civilizácion industrial, um enorme trabalho foi realizado, abrangendo, simultaneamente, as causas que convergem nos limites da sociedade industrial e as razões dos equívocos em que caiu a esquerda, capturada pelo produtivismo e pelo consumismo anestesiante. Guía para o descenso enerxético apresenta, por outro lado, um notável conjunto de estudos sobre a situação energética, social e económica em que a Galiza se apresenta às portas do colapso. Escusado será dizer que não temos, entre nós, trabalhos equivalentes. Pensar, por exemplo, as ameaças e oportunidades que o pico do petróleo oferece à Galiza rural é fazer um trabalho de fundo em prol do decrescimento.

Os relatórios que foram discutidos e aprovados pelo Congresso deram mostra de uma reflexão orientada para as grandes questões sociais e ambientais. Como foi um processo participado, houve alguma disparidade nos vários capítulos aí apresentados. Embora a Rede portuguesa possa daí retirar muitos elementos úteis para a sua reflexão, não creio que deva seguir processos semelhantes na sua própria consolidação: as nossas origens políticas e culturais não são as mesmas. Por outro lado, a nossa distribuição geográfica apresenta a vantagem de uma maior distribuição na geografia do país. Cabe aqui referir que, na reunião entre as redes que antecedeu o Congresso, os nossos amigos galegos nos lançaram alguns desafios – nas áreas da cooperação e edição transfronteiriça – a que queremos responder o melhor que soubermos.

Foi muito comovente a sessão de debate com que encerrou o primeiro dia do Congresso: estavam mais de cem pessoas e pudemos discutir com Carlos Taibo, Teresa Moure e outros algumas das grandes perspectivas com que se confrontam os decrescentistas. Tive aí, pela primeira vez, a nítida sensação de estar com uma comunidade que procura caminhos viáveis. Intervieram, de entre um vasto leque etário, tanto adolescentes como pessoas de idade muito avançada: todos se interrogavam sobre o enlouquecimento da nossa sociedade e as alternativas que urge pôr de pé. Também este sentido de comunidade é precioso porque por ele chegaremos a uma prática mais convivial e solidária.

A terminar, uma nota mais pessoal: as «oficinas» que acompanharam o Congresso formavam parte integral da experiência proposta aos que aí se deslocaram. Participei com grande prazer naquele dedicado ao Tai Chi, orientado pela minha amiga Iolanda Teijeiro – voltar a habitar o corpo é um passo do decrescimento –, mas lamentei não ter tido a oportunidade de também estar no atelier dedicado à lã. Na verdade, encontrei os ofícios do cardar e da fiação muito cedo, quando estive, em França, na Comunidade da Arca, a minha escola da vida comunitária e da auto-suficiência. Fabricar o seu próprio vestuário é um passo tanto da simplificação como da estética, aspectos em cujo caminho conjunto Lanza del Vasto sempre insistia.