O que é preciso é não estar só

Não estar só já não corresponde apenas à união dos camaradas, aos povos ou aos proletários unidos que vencerão. Procurar não ficarmos sós não nos leva a procurar estar entre os escolhidos ou entre os sobreviventes. Significa antes estarmos com os que estão aqui, neste instante – seja essa presença motivada por alguma razão ou simplesmente casual, seja uma presença viva ou evocada. Aquele ou aquela que se sentou ao meu lado, que vive na porta do lado, o vizinho, o passante que já não posso ver apenas como alguém que vai desaparecer na próxima esquina, são todos os que se irmanam comigo no fim de um mundo que perde a ilusão da sua perenidade.

Estou com o outro, não porque ele se parece comigo, porque seja membro da minha classe, colega, camarada, discípulo ou mestre, mas simplesmente porque ele está aqui. No decrescimento, muitos de nós ainda pensam, ou ainda necessitam de fazer um caminho com aqueles com quem têm afinidades. Precisamos de estar com aqueles que começam a vislumbrar connosco os acontecimentos que se avizinham. Isso ainda é verdade, mas não o será sempre. Creio que é essencial estarmos aqui reunidos – na afinidade e na convergência – tendo bem presente que processos cada vez mais impositivos virão a formar uma intransigência dos factos que não nos deve tornar inimigos uns dos outros.

A situação para a qual nos dirigimos é um outro quotidiano, um quotidiano vivido a partir das suas próprias forças e recursos, no sentido em que as bases reais e incontornáveis da existência – a energia, a alimentação e a espiritualidade – estarão de novo muito próximas de nós, e não provirão mais de mundos distantes.

Não estamos numa história de vanguarda, não viemos para dizer uma verdade que transportamos connosco. A verdade de que falamos circunda-nos e, eventualmente, apagar-nos-á. É portanto uma acção da verdade contida na existência terrestre, não uma acção nossa. É sempre o imprevisível que acontece, não o previsível. Precisamos de acreditar que é possível fazer coisas no imprevisível. Estamos a perder ilusões na dor, na desorientação, na angústia. Se o aceitarmos, veremos com mais clareza as possibilidades longamente desprezadas que permanecem em aberto. A fragilidade da existência pode ser uma proposta libertadora.

 

Fevereiro 2019
Jorge Leandro Rosa / Rede DC