Lançar uma rede decrescentista: um primeiro balanço e perspectivas

10 Janeiro 2019Lançamento de uma rede decrescentista em Portugal: um balanço dos primeiros seis meses
Iniciou-se em 2018 um processo de lançamento de uma Rede para o Decrescimento (Rede DC) por iniciativa de duas pessoas que alimentavam há já alguns anos interesse e afinidades em relação àquele movimento: o Álvaro Fonseca, a partir de Lisboa, e o Jorge Leandro Rosa, a partir do Porto. O processo teve a sua primeira concretização pública com a realização de dois eventos nos espaços associativos Gazua e Gato Vadio, em Julho desse ano, no Porto, para os quais foram convidados dois membros da Rede já existente na Galiza (Rede de decrecemento Eo-navia Galiza O Bierzo), que estava a preparar um congresso que viria a decorrer em Outubro. Foi então criada esta ‘mailing list’ através da qual passaram a ser divulgados os passos seguintes do projecto de Rede nacional, assim como ‘newsletters’ com informações diversas. Seguiram-se dois outros eventos de divulgação do projecto de Rede DC e do congresso galego em Lisboa, no Gaia e no ISCTE, em Setembro. Nessa ocasião juntaram-se ao núcleo dinamizador da futura Rede DC o Hans Eickhoff, em Lisboa, e a Sílvia Belo, no Porto. 
Em Outubro, um grupo de seis pessoas (três de Lisboa e outras três do Porto) deslocou-se a Ferrol, na Galiza, para participar no ‘I Congreso de Decrecemento’, cujo relato foi aqui divulgado. No final de Outubro foi aberta para subscrições uma carta aberta a contestar a ampliação do aeroporto de Lisboa e
a criação de um segundo aeroporto no Montijo. A carta foi enviada ao gabinete do Primeiro-Ministro e fomos informados de que foi reencaminhada para os Ministérios do Ambiente e do Planeamento e Infrastruturas. Esta tomada de posição pública foi, até ao momento, a única que tornou explícita a sua oposição ao incremento da circulação aérea e à expansão aeroportuária. A carta aberta foi convertida numa Petição Pública para angariar novos subscritores. Membros do grupo dinamizador e outros decrescentistas estiveram presentes numa sessão pública sobre contestação ao novo aeroporto no Gaia (Lisboa) em Novembro.
Nesse mês iniciaram-se reuniões presenciais de potenciais membros da futura Rede em Lisboa, nas instalações do CIDAC, tendo-se realizado até ao momento duas (a acta da primeira foi já divulgada aqui e a segunda sê-lo-á muito em breve). Também no Porto se começou a organizar um grupo local, embora diversas circunstâncias não tenham permitido ainda a consolidação deste. Em Dezembro o projecto de Rede DC foi convidado a participar na contestação internacional ‘Climate Alarm’ em Lisboa e no Porto. A ‘mailing list’ do projecto de Rede DC tinha no final de Dezembro cerca de 190 membros. 
Próximos passos de dinamização e consolidação da futura Rede DC
Propõe-se que a Rede para o Decrescimento venha a abranger pelo menos quatro funções:
1) Ser um espaço de debate e de formação nas perspectivas do Decrescimento. A troca de experiências e perspectivas entre os membros é parte integrante desta vertente.
2) Ser um vector de propostas dirigidas à sociedade portuguesa, um veículo de campanhas e outras acções de cariz social e/ou político.
3) Ser uma plataforma de divulgação e apoio mútuo para quem se lança em projectos concretos de Decrescimento, seja no plano individual, familiar, cooperativo/comunitário ou académico.
4) Ligar e potenciar os diferentes indivíduos ou
colectivos que estão a promover reflexões ou práticas relacionadas com o Decrescimento, mesmo que não se identifiquem como decrescentistas.
Um passo importante para concretizar parte daquelas funções será a construção de um website da futura Rede, processo que se iniciou com trabalho sob a responsabilidade do designer Manuel Granja. Para esse fim, foi adquirido recentemente o domínio decrescimento.pt. O website servirá não só de fórum dos membros e amigos da Rede, como será a plataforma em português de divulgação de documentos da Rede e de outros materiais do Decrescimento ou afins a este. Quando a estrutura estiver consolidada, daremos mais informações sobre outras colaborações.
O processo de construção de uma futura Rede DC está longe da sua conclusão, sendo ainda necessária a definição da sua estrutura, funcionamento interno e objectivos estratégicos, mas foram dados alguns primeiros passos. Pretendemos continuar a promover reuniões presenciais, pelo menos em Lisboa e no Porto e abertas à participação de membros de outras regiões, para ir reflectindo sobre aquilo que será a futura Rede DC. As propostas aí reunidas deverão ser compiladas em documentos que serão submetidos a um futuro Encontro Nacional do Decrescimento, ocasião em que a Rede para o Decrescimento será formalmente constituída. Tencionamos organizar um encontro com companheiros da Rede galega em 23 e 24 de Fevereiro, no Porto, e uma sucessão de eventos públicos em Março com a presença de Carlos Taibo, que lançará a edição portuguesa do seu livro Colapso, no Porto, em Lisboa e em Montemor-o-Novo (iniciativa do Jornal Mapa). Tencionamos promover um 1.º Encontro Nacional no Outono/Inverno de 2019/2020 para definir as bases e a constituição da futura Rede para o Decrescimento. Até lá, estará online o website ‘decrescimento.pt’, com funcionalidades que auxiliarão na dinamização da discussão interna entre os seus membros. 
Reflexão sobre os papéis de uma futura Rede para o Decrescimento.As redes decrescentistas constituem movimentos de cidadãos auto-organizados e auto-gestionados em torno das ideias e práticas do Decrescimento, como o que surgiu na Galiza e este que está agora a emergir em Portugal. Os principais papéis que estas redes podem desempenhar são: divulgar e clarificar as propostas de práticas económicas, de modelos sociais e de políticas decrescentistas no espaço público, através de publicações, encontros ou debates; comentar e examinar criticamente as iniciativas ou projectos públicos ou empresariais com impactos ambientais, económicos ou sociais, nomeadamente aqueles baseados em falsas soluções ou em soluções insuficientes ou incoerentes; divulgar, potenciar e ligar projectos e práticas que promovam o decrescimento; promover hábitos e práticas que não alimentem o ‘sistema crescentista’ e que sejam coerentes com as premissas do decrescimento; promover o apoio-mútuo entre aqueles que se retiram, de uma forma ou outra, dos circuitos económico-sociais baseados no crescimento; desenvolver práticas de resiliência interior, interpessoal e social num cenário de crescente crise do modelo industrial e desenvolvimentista. Os decrescentistas estão cientes do desafio que será implementar a verdadeira revolução cultural que permitirá descolonizar o imaginário e desintoxicar as mentes e as narrativas dominantes rumo à utopia concreta advogada por Serge Latouche – estamos convictos de que as redes decrescentistas terão um papel central neste processo, que já está em andamento.