Crescimento da economia, diminuição do possível

Artigo publicado na edição impressa do jornal MAPA nº 22 (Jan-Mar 2019), pp. 9-10

Recentemente, pude ouvir Bernard Stiegler dizer que a aceleração dos acontecimentos  provoca sideração (sidération, em francês). Pensando nela, senti que a palavra exprimia o que há de simultaneamente bem conhecido e de inédito na convergência de processos que define o nosso presente. O vocábulo latino siderari, «sofrer a acção funesta dos astros» (Dicionário Houaiss), evoca a antiga noção de um universo interdependente. Por ténue que essa consciência seja, a circunstância presente seria a mais propícia a uma perplexidade partilhada.  Mas a sideração geral não tem uma língua comum. Cada um é tomado pela sideração que corresponde à sua situação particular: os povos atingidos pelas alterações climáticas reagem migrando; as classes remediadas ocidentais, desapossadas do seu posicionamento na escala social e assustadas pelo colapso dos compromissos do pós-guerra, respondem votando na extrema-direita ou saindo para a rua; os Estados, percebendo que a insustentabilidade do mundo globalizado se torna aparente, reforçam as estratégias do logro colectivo em torno das startup e do capitalismo verde. Todos estamos à beira da sideração, mas são muitos os que persistem nas suas mitologias particulares.

Há razões concretas, bem estabelecidas naquilo a que Jacques Ellul chamava as propagandas (Antígona, 2014), para que estejamos apenas confusos ou distraídos, raramente perplexos. É verdade que a que a situação parece contra-intuitiva: nunca houve tanta energia disponível nas sociedades humanas (ou num certo número destas), nunca se viveu tão longamente (em algumas áreas do mundo), nunca se viajou tanto, nunca se consumiu tanta informação, razões pelas quais só teremos de prosseguir o caminho já encetado, introduzindo alguns patches em certas partes do sistema. Esta ladainha costuma ser entoada quando se pretende dar por encerrado o debate em torno do modo de vida contemporâneo e da estrutura económica e tecnológica que o sustenta. E isso acontece à direita e à esquerda porque ambas são atingidas, de modos diferentes e em pontos vitais diversos, pela impossibilidade do crescimento infinito. Quanto mais se prolongam esses elogios dos meios, mais restritas se tornam as nossas possibilidades. Esta coexistência entre as escolhas que encolhem e as tensões de toda a ordem que se acumulam é acompanhada por uma clarificação surpreendente dos dados da situação: o planeta «decidiu» reagir a uma espécie que toma conta dos ecossistemas, reacção que forma o próprio núcleo do Antropoceno; o tempo histórico, que parecia conduzir a uma abertura do sentido, encolhe a olhos vistos, dado que é o futuro que se aproxima agora de nós, e não o inverso.

Recentemente, fui tomado por um estado de surpresa bem diferente: foi em Ferrol, no Ateneu Ferrolan, durante a sessão de debate sobre perspectivas do decrescimento, no Primeiro Congresso Galego do Decrescimento, onde a Rede para o Decrescimento portuguesa esteve presente. Discutimos estas questões no quadro bem enraizado de uma pequena cidade do norte industrial da Galiza. Uma população com origens operárias, embora numa região com tradições agrárias, que muitos dos nossos anfitriões pretendem revalorizar. Ao longo da primeira parte dos trabalhos, tudo decorreu num ambiente que nos era familiar: algumas dezenas de participantes, quase todos provenientes de movimentos associativos ou políticos. Mas chegados ao fim da tarde, vi a sala encher-se de pessoas que não me eram familiares neste tipo de debates em Portugal, pessoas de todas as faixas etárias, reformados, jovens, famílias, uma grande diversidade que transmitia um ambiente caloroso e animado no quadro de um debate que passa muitas vezes por minoritário, pessimista e contracultural. Uma centena de pessoas estavam ali a discutir o colapso do modelo social e económico, o fim da sociedade industrial, o notório desaparecimento de insectos e as ameaças à produção de alimentos, mas igualmente a necessidade da auto-organização social, da economia local e da solidariedade em circunstâncias de redução notória dos rendimentos, da auto-defesa contra a publicidade e a propaganda que controla os media. Tudo isto, mesmo ignorando as estimulantes intervenções que ali foram ouvidas, foi para mim um momento revelador: não haverá decrescimento relevante e significativo se não dermos o papel maior às pessoas que vivem enraizadas no quotidiano, num certo senso-comum, nas relações de vizinhança, aquilo a que Orwell chamava a «decência comum». E não haverá debate real sobre o decrescimento se não tivermos momentos destes: conversas calorosas, provocatórias, participativas e por vezes ingénuas, mas singularmente ricas diante de temas que alguns dizem «lúgubres» e propícios à desistência.

Entramos numa forma de absurdo, o absurdo produtivista em pleno desenrolar do Antropoceno. Vivemos hoje uma aceleração dos acontecimentos que é muito mais vasta e plural do que a cansativa aceleração da história «globalizada» e tecnológica que nos incentivavam a aceitar até aqui. E já não era sem tempo, porque o que se passava correspondia a uma ocultação sistemática dos acontecimentos. O que acontece contém sempre um ângulo cego, uma zona de sombra ou até várias. Na nossa situação, elas são certamente bastantes, mas às zonas de sombra veio reunir-se uma zona ofuscante que nos cega pela sua evidência, correspondente ao decréscimo inelutável da energia disponível, com consequências directas na criação de valor do capitalismo.  O sistema precisa de circulação e consumo de valor, mesmo quando todas as fontes desse valor se dissipam.

As possibilidades abertas na história têm assentado, há mais de dois séculos, na dinamização carbónica da industrialização e de todos os dispositivos que lhe estão anexados. Agora, num repente, anunciado mas chocante, a sociedade industrial deixou de ter a legitimação teleológica para o fazer: já não há locomotivas da história, mas apenas histórias de máquinas lançadas pela pura aceleração, sem perspectiva de reabastecimento a longo prazo. Os «coletes amarelos», que não são um «movimento», no sentido clássico do termo, tornam manifesto que, nesta sociedade, todos os benefícios sociais foram indexados à disponibilidade de energia abundante e barata. Todos somos herdeiros da noção industrial que diz que a um progresso de velocidade corresponde sempre um progresso democrático. Tal deixou de se verificar já há algum tempo. Daí a tentação de misturar todos os «progressos» no mesmo saco: mais estacionamento gratuito com mais segurança social, mais criação de empregos e mais meios para a polícia e para o exército, mais desenvolvimento das estradas e mais meios para a psiquiatria. Não há aqui um programa com sentido, apenas a clara percepção de que os privilegiados começaram a construir novas linhas de demarcação e que a sua gestão das crises anunciadas não se fará já dentro do modelo do fordismo e do salariado. Creio que o decrescimento se inscreve antes num movimento coordenado de saída dessas lógicas. Muitos movimentos podem surgir, sendo necessário saber que o seu terreno será uma crosta altamente instável e móvel. Seja Macron, a grande indústria clássica ou os promotores da robotização generalizada, todos acreditam que é possível dirigir o comboio. Há algo de tragicómico no ocaso da sociedade industrial.

Sem essa percepção, continuaremos a levar a sério a ideia de que o político é o possível quando potenciado pela electricidade (verde). É certo que os ricos podem ainda pagar algo da crise, já que tentam, por todos os meios, pôr-nos a pagá-la. Mas em vez da dialéctica da tomada do poder, proporia aqui a difusão da sideração e a criação que lhe sucede. Em vez do simples esmagamento da burguesia, deveríamos trabalhar no interior das curvas descendentes de todos os actores: a curva do petróleo e da energia disponível já está firmemente presente na Europa, a curva dos «remediados» aí está agarrada aos seus consumos «modestos», a curva dos desempregados ou dos mal-empregados cai melancolicamente no irreversível, vem já a curva dos eurocratas e da burguesia globalizada, do sistema científico-industrial, dos solos e das espécies. Havendo, talvez, uma forma derivada de luta de classes, haverá certamente a luta de todos no fim da produção, que poderíamos transformar em resistência generalizada ao produtivismo. O que aprendi naquela sala de Ferrol diz-me que há uma margem de reinvenção social, deslocando-a para patamares energéticos e de complexidade tecnológica e social muito mais baixos (em termos quantificados). Numa fase de decrescimento, é preciso reduzir os meios à justa velocidade, nem com lentidão nem abruptamente, para que TODOS possamos continuar vivos.

Jorge Leandro Rosa / Rede DC