Elípticos


Frédéric Neyrat é um filósofo preocupado com a ecologia. Mais do que isso, é um decrescentista convicto. Também ele diz que não podemos continuar a viver como se o mundo fosse ilimitado. Tem escrito longamente sobre a Terra, dizendo que o homem moderno se foi progressivamente retirando de um sentido de pertença terrestre (o que significa que deixou de se considerar um habitante, quer dizer, o participante de um habitat) enquanto passava a entendê-la como «imagem-mundo», quer dizer, como uma mera projecção dos nossos fantasmas e desejos.

Neyrat publicou, entre muitos outros, um livro notável sobre a ameaça do geo-construtivismo, essa pretensão de refazer o sistema terrestre, agora que a mudança climática antropogénica ameaça destruir as condições de sobrevivência da Humanidade. Trata-se de La Part inconstructible de la Terre («A Terra que não pode ser construída»), obra de que contamos ver publicação em Portugal. Estaremos condenados a uma fuga para a
frente sustentada na ilusão de que poderemos continuar sempre a remediar os efeitos das tecnologias com novas tecnologias?
Neyrat já esteve duas vezes em Portugal, a primeira das quais o ano passado, no Porto, onde participou num Encontro Internacional sobre Pensamento e Catástrofes. Contamos que regresse em 2019 para um Encontro sobre a Terra. Desta vez, foi entrevistado para o jornal Público. Pelo seu interesse, quisemos divulgar essa entrevista na Rede DC. Mas antes de o fazermos, pedimos-lhe algumas linhas que, na continuidade da entrevista, referenciassem o decrescimento e o seu significado. É o que se reproduz a seguir. Poderão ler antes ou depois da entrevista.
Os nossos agradecimentos a Frédéric Neyrat e a todos os nossos amigos.
      J.L.Rosa

     Do asteróide ao cometa

Na entrevista publicada pelo Público, descrevo a humanidade como um asteróide que atinge a Terra. Eis o significado desta imagem paradoxal: ao contrário do que se passou com os dinossauros, o poder de destruição do nosso mundo vem do próprio mundo, de nós próprios. É um poder capitalista, técnico, político e social; é a potência contida na exploração ilimitada da Terra e das sociedades. Qual poderia ser o movimento contrário ao da exploração? Um decrescimento, sem dúvida alguma; mas os dicionários não conhecem ainda o antónimo positivo da palavra «exploração»: apresentam apenas termos negativos, como «negligência», «esquecimento», «abandono», «desperdício»… O fim da exploração, a anti-produção radical, é o grande impensado da nossa civilização global, talvez porque civilização e exploração sejam dois termos muito próximos. Para acabar com a exploração seria preciso inverter o movimento do mundo: tornar-se profundo, cósmico, ser capaz de saborear um copo de água como propunha Epicuro. Sejamos como os cometas, para os quais o encontro não é o choque, a destruição, mas antes a passagem ao largo. Sejamos elípticos.

 F. Neyrat (tradução de Jorge Leandro Rosa)